Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 22/09/2020
Na obra cinematográfica “Odiados pela nação”, escrita por Charlie Brooker, ondas comentários odiosos nas redes sociais, em repúdio a alguém que cometeu algum ato controverso, desencadeiam na morte misteriosa do alvo do ataque digital. Ao considerar esse episódio como ponto de partida para tecer uma discussão sobre a cultura do cancelamento, é imprescindível considerar que apesar de se tratar de uma distopia, a congruência com a contemporaneidade é evidente, no que tange a manifestação agressiva e irresponsável da sociedade, feita pela internet, diante de alguma situação polêmica. Nessa perspectiva, torna-se pontual refletir sobre a cultura do cancelamento como instrumento de julgamento e opressão, e demonstrar como os efeitos desse processo impactam no corpo social.
Diante dessa premissa inicial, é preciso esclarecer que o cancelamento representa uma ameaça ao debate, à troca de informações e à liberdade de expressão, dado que é um movimento radical e extremamente intolerante com visões opostas. Acrescente-se a esse ponto o fato de que essa cultura estabelece uma ditadura comportamental que leva à desconstrução de individualidades, visto que hoje evita-se abordar assuntos polêmicos e manifestar opiniões controversas, em decorrência do receio de uma reação popular radicalmente negativa. Dessa forma, fica claro que a cultura do cancelamento deve ser questionada, para a conservação das individualidades e da livre troca de opiniões e pontos de vista. Ainda nessa perspectiva, não se pode esquecer que a prática do cancelamento pode impactar no corpo social de forma nociva, em razão de denegrir a imagem do cancelado perante a sociedade, podendo causar danos à sua saúde mental, devido à avalanche de ódio e às críticas muitas vezes descabidas. Assim como em “Odiados pela nação”, em que a população se mobiliza contra uma jornalista que publicou um artigo controverso, utilizando a hashtag “#mortepara” nas redes sociais como forma de atacá-la. Logo, fica claro a população precisa ter consciência da responsabilidade dos atos na internet, afinal, estes tem consequências diretas no mundo real.
É preciso, portanto, promover ações que realmente possam alterar esse quadro. Em um primeiro momento, é imprescindível que o Ministério da Cidadania, em parceria com a mídia, crie campanhas apelativas em combate ao cancelamento, a partir da divulgação de propagandas e curtas metragem sobre o tema, visando conscientizar a população sobre os malefícios dessa prática. Outra medida importante a ser efetivada pelo Ministério da Educação é a instrução dos alunos sobre como agir na internet, pautado na realização de palestras e de debates, a fim de que tenham consciência da responsabilidade e dos perigos da interação pelo mundo virtual.