Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 19/09/2020

O atual cenário brasileiro no que se refere à cultura do cancelamento assemelha-se à Revolução Francesa, em que as pessoas eram submetidas à guilhotina caso se opusessem ao regime vigente ou cometesse alguma barbárie. Nesse viés, nota-se que, ainda na contemporaneidade, as pessoas se veem cada vez mais no direito de julgar os outros como inocentes ou não, vigiando e punindo de forma severa alguns indivíduos que ousaram discordar de um discurso imposto pela sociedade. Dessa forma, deve-se refletir acerca das consequências da política do cancelamento e seus efeitos na sociedade.

Primeiramente, parafraseando Michael Foucault, o poder está no discurso e tolerar a divergência é a saída para se livrar da prisão do pensamento. Partindo desse pressuposto, observa-se que muitos pararam de discordar das ideias e passaram a criticá-las, tornando-se intolerantes e disseminando discursos de ódio em redes sociais. Nesse sentido, é inegável que muitos têm a sua liberdade de expressão ceifada, visto que são julgados, agredidos e cancelados por não compartilharem o mesmo posicionamento da maioria. Ademais, a cultura do cancelamento surge como uma espécie de fuga para indivíduos que não são capazes de lidar com suas próprias frustrações. Diante disso, favorecidos pelo anonimato e a sensação de impunidade proporcionados pela internet, sentem-se emponderados para humilhar aqueles cujas opiniões não os agradam. Logo, é evidente que essa forma de linchamento virtual é um efeito da tendência contemporânea de julgar por não saber respeitar e tolerar outras ideias.

Nessa perspectiva, em 1977, o cineasta Roman Polanski teve sua carreira manchada pelo estupro de uma criança de treze anos. No século XXI, esse fato veio à tona, cancelando o diretor, em virtude da disseminação do movimento #MeToo, idealizado por vítimas de abuso sexual. Dito isso, é notório que casos como o de Polanski não podem ser considerados “erros” e devem ser punidos de forma correta. Entretanto, famosos e anônimos que não se posicionam ou têm um pensamento divergente da maioria, têm sido cancelados por meio de ofensas, ameaças e notícias sensacionalistas, prejudicando a vida social, pessoal e a carreira do indivíduo boicotado. Assim, é indubitável que o ato de cancelar exerce um forte impacto sobre a vida do anulado, que, além ter seus planos comprometidos, pode levar por muito tempo essa nódoa na sua história.

Depreende-se, portanto, que as pessoas estão, cada vez mais, julgando e punindo aqueles discordam dos discursos imposto. Destarte, é premente que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações promova palestras educativas on-line por meio de vídeos nas plataformas digitais sobre a importância do respeito e tolerância a outros pontos de vista, com o intuito de garantir a liberdade de expressão nas redes, assegurando a todos o direito de expor suas opiniões .