Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 19/09/2020
Durante a Revolução Francesa, Joseph Gillotin criou a guilhotina com o intuito de decapitar qualquer suspeito de se opor ao regime ou acusado de cometer alguma barbárie. Analogamente, na contemporaneidade, as redes sociais trazem uma nova forma de boicotar e expor atitudes e conceitos que devem ser repensados. Observa-se, pois, a premência de estratégias para o desenvolvimento da visão crítica dos internautas em relação aos limites do cancelamento online.
Com efeito, em 1977, o diretor Roman Polanski foi acusado de drogar e estuprar uma menina de 13 anos. Nesse contexto, após alguns anos, esse fato veio à tona, cancelando o diretor, em virtude da disseminação do movimento #MeToo, idealizado por vítimas de abuso sexual. Nessa perspectiva, a exposição e discussão do crime na internet colaborou para a reflexão sobre os costumes e ideais de uma sociedade patriarcal e antiquada, somados aos abusos sexuais que ocorrem frequentemente e são omitidos pelas suas vítimas e pessoas à volta. Além disso, a cultura do cancelamento dá abertura a diversos debates virtuais e exposições sobre temas como a corrupção, zoofilia, abusos de crianças, homofobia e racismo, ou seja, atos ilícitos que necessitam ser penalizados, por meio da exclusão social do infrator. Dessa forma, o boicote online torna-se producente para ampliar a preocupação da sociedade acerca dos valores éticos e morais e com a dignidade humana.
Por outro lado, a teoria do panóptico, popularizada por Focault, em sua obra “Vigiar e Punir”, baseia-se numa sociedade mediada pela vigilância que pune desvios, muitas vezes, entre uma faixa considerada normal. De forma análoga, na no limiar do século XXI, as redes sociais se tornaram um instrumento de influência sobre as pessoas que, geralmente, vivem em uma bolha epistêmica. Nesse sentido, os famosos e anônimos que não se posicionam ou têm um pensamento divergente da maioria são cancelados rapidamente por meio de ofensas, ameaças e notícias sensacionalistas, prejudicando a vida social, pessoal e a carreira do indivíduo boicotado. Outrossim, pessoas que cometem um erro ou se manifestam de forma equivocada são humilhadas e sem direito à redenção, pois a alienação proporciona o esquecimento de que errar é humano e o próprio julgador está vulnerável à falhas cotidianas. Dessa maneira, protegidas pelo anonimato propiciado pela internet, as pessoas se sentem empoderadas para julgar, mitigando o diálogo e fomentando discursos de ódio.
Tendo em vista que as redes sociais se tornaram uma espécie de palco para boicotar e expor conceitos e atitudes que devem ser repensados, é imperioso que o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações promova seminários mediante vídeos nas suas plataformas online, acerca dos limites da cultura do cancelamento, a fim de minimizar os efeitos negativos do boicote.