Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/09/2020

A cultura do cancelamento vem se tornando cada vez mais popular no mundo virtual e tem um objetivo simples: boicotar (ou “cancelar”) alguma pessoa, normalmente uma figura pública, por conta de atos machistas, racistas, LGBTQfóbicos e etc. Porém, apesar da premissa positiva que a ideia carrega, precisamos questionar até que ponto a cultura do cancelamento realmente é revelante e funciona diante da nossa sociedade. Como diz o cantor Criolo na música “Convoque seu Buda”, não é possível “mudar o mundo do sofá da sala e postar no Insta”.

É importante observar que nem sempre as ações promovidas nas redes sociais tem um impacto na vida real. Alguns dos exemplos de destaque são a autora britânica de Harry Potter, J.K Rowling, acusada de transfobia e do rapper Kayne West, acusado de machismo. Apesar de serem boicotados nas redes sociais, o alcance de ambos artistas continua gigantesco, mesmo depois de seus posicionamentos controversos. A cantora Anitta, o compositor Raul Seixas e até mesmo o escritor Monteiro Lobato também são ótimos exemplos nacionais, pois, apesar de sua imagem negativa nas redes sociais, tem marcas quase inapagáveis dentro da nossa sociedade. Em outras palavras, todas estas figuras continuam tendo impacto e relevância fora da bolha da internet.

O rapper contemporâneo Froid diz sem sua música “Debate sobre a Indústria”: “Não, você não pode cancelar o tempo.” Hoje há um anseio enorme dentro do ambiente das mídias socias para se provar o “maior”, o “superior” ou o “mais inteligente”. Está sede para se sentir mais poderoso que os outros impulsiona a cultura do cancelamento e apaga a importância crucial do diálogo e do debate aberto. O  cancelamento não é o melhor jeito de se lidar com questões socais tão importantes como as citadas acima. É preciso saber dialogar e reeducar a população, dando-os condições de entender o porquê suas ações reproduzem comportamentos preconceituosos, dos quais, na maioria dos casos são enraizados dentro da nossa própria sociedade. Assim, a solução não é apenar boicotar ou apagar artistas e pessoas que tiveram atos condenáveis, mas sim os ensinar para que este conhecimento seja passado adiante e, o mais importante, suas ações não voltem a se repetir. Por fim, o sociólogo polonês Bauman afirma: “As redes sociais são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.”