Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 15/09/2020
Em um dos episódios da série “Black Mirror”, é retratada a história de uma sociedade na qual, por meio de enquetes, os internautas julga as ações de pessoas públicas e decidem sua sentença, podendo até mesmo bloqueá-las da coletividade. De maneira análoga à obra, a cultura do cancelamento surgiu no mundo contemporâneo, não impedindo os cidadãos da convivência social, mas impondo a eles duras e pesadas críticas. Tal tendência está cada vez mais presente no meio online, afetando a vida de muitos. Essa é uma realidade que persiste por fatores sociais e tem efeitos negativos não só para o indivíduo “cancelado”, mas para toda a coletividade.
As raízes desse problema são encontradas na difusão da ideia de perfeição. Esta é exemplificada no livro “A sociedade do espetáculo”, de Guy Debord, no qual é exposto o pensamento de que as pessoas estariam vivendo como se fizessem uma performance, tentando passar uma imagem que não é a real. Nesse viés, elas têm a falsa impressão de que estariam no direito de julgar o outro por algum erro cometido. Dessa maneira, surgem críticas excessivas, muitas vezes não baseadas em fatos concretos e sem a possibilidade de defesa. Tal julgamento cresce nas redes, tomando proporções inimagináveis e de difícil reversão.
Por conseguinte, ocorre o ultraje da imagem do indivíduo. Desse modo, ele se torna constantemente humilhado e desprezado, já que o corpo coletivo perde a consciência de sua responsabilidade para com o outro, começando a agir de forma rigorosa e exigir sempre um comportamento pré-estabelecido, livre de falhas. Para mais, essa situação pode gerar grandes perdas, dentre as quais estão a demissão de um bom emprego e o afastamento de um ente querido. Contudo, não é somente esse sujeito que enfrenta os resultados disso, tendo em vista que os homens passam a ter medo de mostrar quem realmente são, escondendo-se por trás de aparências e protagonizando a “sociedade do espetáculo” defendida por Debord.
Observa-se, portanto, que a cultura do cancelamento causada por razões sociais gera danos à população. Destarte, medidas são necessárias. É preciso que a mídia, como principal influenciadora de massas, incentive as pessoas a se aceitarem e se perdoarem. Isso deve ser feito por meio da abordagem desse assunto em filmes, novelas e músicas, mostrando que errar é humano e proporciona o aprendizado e a evolução. Assim, o hábito de difamar alguém será extinto e a luta por uma vivência melhor poderá continuar de forma respeitosa. Com essas ações, será possível a criação de uma sociedade mais justa e próspera.