Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 17/09/2020

Na Idade Média, os acusados de serem hereges, mesmo sem provas, eram executados em praça pública e assistidos por toda uma multidão. Da mesma forma que espectadores das execuções compactuavam e possivelmente teriam colaborado com estas, acontece nas redes sociais algo semelhante com o cancelamento de pessoas. Nesse cenário, é preciso discutir sobre as causas e consequências negativas proporcionadas pela cultura do cancelamento na sociedade contemporânea.

Primeiramente, é válido destacar que a facilidade de compartilhamento das redes sociais e a própria natureza humana são as principais causas da cultura do cancelamento. Nesse viés, as mídias sociais se caracterizam como um meio de propagação veloz desse comportamento, que afeta especialmente pessoas públicas. Por conseguinte, tais mídias vão de encontro com a teoria de Pierre Levy sobre a inteligência coletiva do ciberespaço e dispersam exclusão, mas não conhecimento. Por outro lado, o próprio caráter humano tem influência em ignorar totalmente o que alguém faz e produz devido a discordância de opiniões, pois não sabe-se dialogar e discutir pontos de vista que, segundo o filósofo inglês John Locke, são adquiridos com a experiência de vida e, sendo assim, podem ser mudados.

Outrossim, é importante apontar que as consequências afetam negativamente os âmbitos emocionais e econômicos das pessoas que sofrem essa forma de violência digital. Embora os praticantes de cancelamentos acreditem que a exclusão é a melhor forma coercitiva, esta é extremamente nociva para o emocional dos cancelados. Destarte, mediante a tantos comentários negativos direcionados simultaneamente a vítima, esta não tem chance de se defender, comprometendo sua saúde mental. Sob uma segunda ótica, os prejuízos econômicos se tornam elevados, posto que as pessoas provavelmente são demitidas de seus empregos por uma pressão do os usuários da internet. Logo, dificilmente o anulado consegue se reconstruir emocionalmente e financeiramente depois do ocorrido.

Torna-se claro, então, que é imprescindível a tomada de decisões que mitiguem a cultura do cancelamento e os seus danos. Portanto, o Ministério da Educação (MEC) deve implementar a educação midiática na grade curricular do ensino fundamental II e do médio, uma vez que os mais jovens são os mais integrados na internet e irão constituir a próxima geração de cidadãos. Além disso, tal ação deve ser realizada por intermédio das escolas tanto públicas como privadas, que devem organizar aulas práticas e dinâmicas para o melhor entendimento de seus estudantes. Nesse sentido, a fim de prevenir a perpetuação da cultura do cancelamento e diminuir gradualmente suas sequelas. Desse modo, a era das redes sociais não serão comparadas a chamada Idade das Trevas e os cancelados deixarão de serem vistos como os hereges.