Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 14/09/2020
No episódio “Odiados pela nação”, da série televisivel “Black Mirror”, retrata inicialmente o ataque sofrido por algumas pessoas através das redes sociais devido a posicionamentos e pensamentos moralmente questionável. Fora da ficção, o Brasil hodierno passa por uma conjuntura envolvendo a cultura do cancelamento, fato que se deve ao julgamento errôneo e à falta de diálogo. Logo, é fundamental analisar ambos os problemas a fim de que se possa contorná-los.
Em primeiro lugar, o ato de cancelar é um reflexo da falta de empatia e do falso moralismo do corpo social, intensificados com o advento das redes sociais. Nesse sentido, de acordo com o filósofo Michael Foucault em sua obra “Vigiar e Punir”, discorre sobre os diferentes poderes presentes na sociedade que buscam o controle de gestos, saberes e formato de comportamento. Dessa forma, é notável que o cancelamento praticado por determinados grupos, que representam morais e que detém poder em certo contexto social, é uma justificativa para impor normas, aparentemente corretas, no meio social, mas que contradizem seu discurso no momento em que julgam atos e falas tidos como incorretos e não buscam dialogar, ou seja, não conduzem uma mudança, apenas instigam certo controle disciplinar. Desse modo, é imprescindível uma alteração de comportamento da população para alterar esse cenário.
Outrossim, é válido destacar que a cultura do cancelamento dificulta o diálogo e impossibilita uma mudança de opinião e atitude. De acordo com a antropóloga e cientistas social Rosona Pinheiro, “cancelar é sempre negativo”, uma vez que o problema não é a crítica, mas sim é quando isso escorrega para uma negação do sujeito, do que a pessoa tem a dizer e do que faz. Nessa lógica, o ato de cancelar, certamente não abre espaço para uma troca de opiniões, pois ao julgar as ações do próximo não há consideração pela sua defesa, apenas uma busca desenfreada por " fazer justiça “, que gera indivíduos intolerantes, com incapacidade de debater, e com represália desmedida, que cancela não só a fala do julgado, como também seu trabalho e vida em geral. Dessa maneira, é necessário que haja uma maior compreensão da sociedade dos impactos negativos dessa cultura.
Portanto, com o intuito de coibir práticas dessa natureza, cabe ao Ministério da Comunicação, em parceria com a mídia, fomentar discussões acerca do funcionamento dos atos de cancelamento, assim como dos impactos negativos gerados por eles tanto na vida privada, quanto na pública. Isso deve ser feito a partir de debates e palestras que abordem temas relavantes no cenário local, sobretudo assuntos que já foram amplamente difundidos na internet, com a participação de especialistas detentores de opiniões distintas em cada questão.