Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 14/09/2020
A cultura do cancelamento teve início em 2017, a partir da mobilização de vítimas de assédio e abuso sexual (Movimento #MeToo), expondo problemas escondidos há anos. Entretanto, essa cultura seguiu um rumo diferente do movimento que a originou, tirando o exercício do contraditório e dando visibilidade a pessoas de conduta reprovável. Nesse sentido, faz-se necessário discutir o tema e dirimir seus efeitos.
Em primeiro plano, o tribunal da internet não realiza seus julgamentos com proporcionalidade, pois deixa de discutir ideias e passa a discutir sobre pessoas ou empresas. Além disso, outras pessoas ou empresas envolvidas em situações análogas não sofrem as mesmas sanções na mesma intensidade das canceladas. Pode-se citar cancelamento da blogueira Gabriela Pugliese, que teve contratos cancelados por dar uma festa durante a quarentena e do cantor Gustavo Lima, que não sofreu dano algum apesar de ter realizado o mesmo ato.
Em segunda análise, a cultura do cancelamento pode gerar efeitos contrários ao esperado e dar notoriedade a quem queriam cancelar, fazendo a pessoa ter mais sucesso e engajamento. A exemplo disso, tem-se o ex participante do “Big Brother Brasil”, Felipe Prior, que foi alvo de críticas por falas machistas e que em meio à polêmica, ganhou mais seguidores e a participação em outros programas. Com isso, vê-se que, quando se tira o foco do problema e transfere-o para a pessoa, os efeitos podem ser reversos.
Portanto, é urgente repensar sobre a cultura do cancelamento. Para isso, é necessário que sejam promovidos debates em canais televisivos abertos sobre essa temática, a fim de mostrar os efeitos negativos advindos dessa problemática. Além disso, os influenciadores digitais devem dar espaço para que os cancelados tenham oportunidade de esclarecerem suas atitudes e consertar seus erros. Assim, a internet será um espaço de aprendizado e discussão, com julgamentos mais justos.