Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/09/2020

Em “A sociedade dos indivíduos”, o sociólogo alemão Norbert Elias sustenta a tese de que é possível consolidar bem-estar e felicidade individual e uma sociedade livre de conflitos. Contudo, ao se discutir sobre a cultura do cancelamento percebe-se que essa forma de atacar virtualmente o indivíduo que efetuou algo considerado errado prejudica a integridade e a saúde mental das pessoas. É importante, então, questionar o papel do Estado como organizador da sociedade civil, já que a realidade evidencia que, cada vez mais, os valores coletivos estão escassos na contemporaneidade.

A partir dessa proposição inicial, é necessário esclarecer que a convivência pacífica entre os membros de uma comunidade torna-se imprescindível para a manutenção do bem-estar de um país. Ademais, não se pode negar que a atualidade é marcada pela perda de valores coletivos, porque, como advoga Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, em que nada foi feito para durar. Isso significa que, em relação à cultura do cancelamento, verifica-se que as redes sociais não promovem o respeito mútuo entre os indivíduos. Desse modo, infere-se que, caso não ocorra mudança no olhar sobre a importância de democratizar as opiniões no meio virtual, dificilmente a cultura do cancelamento será superada.

Ainda nessa linha de raciocínio, é preciso considerar que o julgamento provocado através da cultura do cancelamento é uma forma de incitar o ódio através das redes sociais. Inclusive, compreende-se que diversas são as consequências sofridas pelo indivíduo que é vítima desse ato, uma vez que, a pessoa pode desenvolver transtornos mentais, como a depressão. Nessa perspetiva, há, como alerta Rousseau, a quebra do Contrato Social, de modo que, o ensino conteudista da educação básica, instituição que representa o Estado, não cumpre com q sua respectiva função de formar uma consciência cidadã nos alunos, ao não alerta-los acerca dos perigos das redes sociais. Assim, fica claro que a falta de conhecimento sobre as possíveis consequências acerca da cultura do cancelamento promove a problemática.

Diante desse cenário, constata-se, portanto, a necessidade de mudança no cenário atual. Logo, é fundamental que o Governo Federal estabeleça como meta o aumento da convivência de forma pacífica entre os indivíduos nas redes sociais, mediante iniciativas como campanhas de conscientização e propagandas que estimulem a formação de uma identidade nacional, a fim de que valores coletivos possam ser restabelecidos. Ademais, cabe ao Ministério da Educação promover a formação cidadã dos alunos do ensino básico, a partir da criação de uma disciplina curricular obrigatória que informe acerca dos perigos das redes sociais e que ensine os indivíduos a como interagir corretamente no meio virtual. Dessa forma, espera-se que, mesmo em uma sociedade líquida, o bem-estar possa ser solidificado.