Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 11/09/2020

O termo cancelamento se consolidou em 2017 com o surgimento, nas redes sociais, do movimento “me too” que denunciava o assédio sexual na indústria americana de entretenimento. No entanto, a cultura de cancelamento que fora um mecanismo de denúncia justa, atualmente tem se tornado uma modalidade punitivista que, por vezes, acarreta severas injustiças. Assim, é imperioso que essa modalidade de julgamento virtual seja, paulatinamente, convertida em medidas educativas que combatam as causas reais dos problemas que geraram essas indignações virtuais.

Em primeiro plano, é importante destacar que o julgamento nas redes sociais, por ser virtual, é rapidamente disseminado, o que pode acarretar injustiças no caso de informações falsas. Nesse sentido, na sociedade contemporânea, as pessoas têm extrema necessidade de apontar falhas alheias para sentir moralmente superiores,  fato que, segundo a escritora americana Jia Tolentino, é definido como sinalização de virtude e ocorre de forma continuada em postagens nas redes sociais. Essa sinalização, aliada à velocidade das redes, pode, em caso de “fake news”, gerar prejuízos graves às pessoas canceladas. Logo, fica claro que esse tipo de julgamento deve ser minimizado ou realizado com cautela.

Outrossim, diante desse cenário, é crucial trocar o punitivismo da cultura de cancelamento por medidas estruturantes que resolvam a problemática. Nessa conjuntura, cabe ressaltar que esse tipo de julgamento é temporário, as pessoas se esquecem do assunto  logo que apareça outro indivíduo cancelado, o que não resolve o problema. Dessa forma, de acordo com Loreta Ross, feminista americana, é essencial que medidas punitivistas sejam trocadas por medidas educativas que buscam resolver a causa raiz do problema, deixando o julgamento virtual para pessoas poderosas que não poderiam ser atingidas de outra maneira.

Portanto, é imperativo que a cultura de cancelamento seja substituída por medidas educativas que acarretem mudanças estruturais que combatam a problemática fruto de indignação. Destarte, urge o Governo Federal, na figura da Secretaria de Comunicação, órgão responsável pela centralização de políticas de comunicação do país, monitorar as redes sociais e criar programas educativos sobre os temas frutos de indignação, em parceria com os outros ministérios envolvidos, instruindo acerca dos canais de denúncia apropriados, por meio de campanhas publicitárias divulgadas nas mídias escritas e faladas, de modo que, gradualmente, os problemas relativos a esses temas sejam combatidos e o julgamento virtual seja substituído pelo julgamento legal.