Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 11/09/2020

“Ninguém contrata alguém com meu histórico”. A frase de uma personagem da série americana “Ozark” retrata uma questão social: a perpetuação do julgamento sobre os atos e as opiniões de uma pessoa pela sociedade. Nesse contexto, a contemporaneidade é permeada por uma “cultura do  cancelamento” que se estende do mundo físico até o virtual. Assim, é necessário compreender como e por que esse fenômeno ocorre, no que tange a relação com o psicológico humano e das novas tecnologias, bem como os fatores que englobam a veracidade e a desproporcionalidade das críticas.

É importante destacar, primordialmente, que o cancelamento tem origem na busca por justiça social para atitudes atitudes e opiniões inapropriadas ou eticamente incorretas. Todavia, o problema reside na proporção com que é realizada a ação, tendo em vista a velocidade que as redes sociais disseminam ideias e o efeito cascata que essas ferramentas criam. Desse modo, o “Twitter”, o “Instagram” e o “Facebook” -dentre outras plataformas- se tornam o palco para constantes críticas , na qual se difundem até discursos de ódio. Todo esse rápido processo priva os “cancelados” de qualquer defesa psicológica ou monetária, além de causar sequelas na honra, causada pelos “canceladores”. “O sonho do oprimido é se tornar o opressor”. Essa frase do educador brasileiro Paulo Freire descreve uma das várias possíveis motivações para esse fenômeno: a transferência de negatividades diárias para as redes sociais, se manifestando por via de julgamentos incisivos e desmedidos sobre fatos alheios.

Ademais, a proliferação de “fake news” contribui para a infeliz “cultura do cancelamento”, uma vez que tira a veracidade de uma crítica que poderia ser construtiva, caso não fosse também deturpada a proporcionalidade da reação. Nesse sentido, a eleição presidencial de 2016 dos Estados Unidos se demonstra um exemplo de como notícias falsas criam “cancelamentos” intencionais em massa, pois, ao se espalharem essas “fake news”, era esperado uma reação negativa do público para com o presidenciável alvo, gerando  perda de votos, e por conseguinte, a perda da eleição.

Fica evidente, portanto, a necessidade de intervenção nesse quadro nocivo à sociedade. Por isso, a mídia deve demonstrar a necessidade o potencial negativo dessa cultura, bem como a busca de averiguar a veracidade das informações utilizadas e, em conjunto do Ministério da Saúde, fomentar a defesa da saúde mental de “cancelados” e “canceladores”. Tais fatos devem ocorrer por meio da disseminação de conteúdos dos afetados -sequelas emocionais e econômicas, recuperação, e afins- a fim de a compaixão gerar a busca por verdade nos dados recebidos, bem como a reinserção social dos julgados; e por meio da disponibilização de psicólogos, a fim de amenizar causas e efeitos do problema.

Dessarte, casos como o de “Ozark” e da eleição norte-americana serão gradativamente evitados.