Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 12/09/2020

A cultura do cancelamento nasceu com uma finalidade nobre: tentar promover mudanças efetivas na sociedade contemporânea. Em 2017, o movimento “Me Too” expôs na internet vários nomes de famosos que teriam cometido crimes em Hollywood. Nesse contexto, o repúdio às personalidades expostas e a busca por justiça estimularam ataques às pessoas que supostamente teriam feito alguma atrocidade, “cancelando-as”. Entretanto, houve subversão de valores, pois esse comportamento se propaga por meio de discursos de ódio e irracionalidade. Logo, o debate sobre a problemática é necessário.

Em primeira análise, o objetivo original da mobilização foi modificado. Sob tal ótica, na série britânica “Black Mirror”, o episódio “Odiados pela nação” conta a história de mortes de pessoas que foram alvos de críticas nas mídias sociais. Fora da ficção, verifica-se que exposições baseadas no ódio repercutem em “linchamento virtual”, ou seja, intensa repressão contra qualquer cidadão com a opinião diferente. Por conseguinte, a manifestação de um juízo de valor violento, ao invés de provocar transformações sociais, prejudica ainda mais a dinâmica coletiva, como ilustrado de maneira caricata no seriado.

Ademais, vale ressaltar que, a falta de racionalidade guia essa cultura intolerante. Nesse sentido, segundo a filósofa Hannah Arendt, há a banalidade do mal como resultado da massificação, cujos participantes partilham certos pensamentos. Conforme esse conceito, a sociedade se torna incapaz de realizar julgamentos morais, de forma que concorda com o contexto sem que se tenha uma reflexão racional ou questionamento. Observa-se, então, que a ideia de Arendt está presente na conjuntura, uma vez que os usuários de redes sociais manifestam sua opinião sem se importarem com as consequências, tornando habitual o compartilhamento de ofensas.

Dessa maneira, medidas devem ser tomadas para mitigar os entraves sobre a ideia de cancelamento. Convém, portanto, que o Ministério da Educação, instância máxima da administração dos aspectos educacionais do Brasil, baseando-se em critérios técnicos, racionais e não odiosos de discernimento, realize palestras em escolas, a fim de discutir maneiras efetivas de promover mudanças na sociedade. Isso pode ser feito a partir de parcerias com as prefeituras e transmissões ao vivo nas redes sociais do ministério. Assim, a “cultura do ódio” não caminhará para o futuro exposto em “Black Mirror”.