Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/09/2020
O episódio “Nosedive”, da série norte-americana “Black Mirror”, exibida pela plataforma de streaming Netflix, retrata a história de uma jovem, a qual entra em colapso após não alcançar uma avaliação de cinco estrelas em um aplicativo responsável por regular quem é aceito socialmente. Fora das telas, a trama representa uma analogia à necessidade de muitos usuários em serem aceitos no meio digital, com medo de se submeterem ao cancelamento do século XXI e da exclusão proporcionada por ele. Nesse cenário, é preciso entender as causas e as consequências dessa cultura para os inúmeros brasileiros que navegam no meio digital.
Em primeiro momento, faz-se necessário compreender o que é e quais as razões dessa problemática. O “cancelamento de um indivíduo” ocorre quando este é exposto publicamente, realizando ou dizendo algo que, desagrade os internautas. Assim, comentários políticos, publicações racistas ou machistas, abusos e diversos outros, são motivos que podem levar alguém a ser cancelado. Dessa forma, muitas vezes, essa realidade corrobora para a manutenção da segurança, tanto dentro quanto fora do meio cibernético, assegurando o direito de liberdade do ser humano caso não seja usado para ferir e desrespeitar o outro, como assegurado pelo artigo número cinco da Constituição.
Entretanto, embora tenha se iniciado como uma forma de assegurar a justiça, o cancelamento apresenta consequências negativas. Nesse contexto, esse ato de cancelar primeiro e dialogar depois, adquiriu proporções exacerbadas na internet, ocasionando até mesmo o aparecimento de notícias falsas pejorativas. Por consequência, como dito pelo sociólogo Erving Goffmann, esse cidadão atingido será estigmatizado e excluído, sujeito ao recebimento de comentários negativos, os quais o fazem acreditar que não possuirá uma segunda chance para se redimir ou se explicar. Ademais, este pode sofrer com o aparecimento de determinados transtornos, tal como ansiedade e depressão, devido ao isolamento e à pressão imposta.
Diante do exposto, é nítida a necessidade de medidas acerca do assunto. Portanto, cabe ao governo, por meio do Ministério Público, ratificar através do monitoramento de sites públicos, o cumprimento das regras impostas para o uso da internet, evitando opiniões desrespeitosas e a disseminação da cultura do cancelamento, provando que as redes sociais não caracterizam uma terra sem lei. Outrossim, cabe aos próprios internautas o papel de consolidação do meio digital como um local de respeito e de livre pensamento, sem o violamento dos princípios da ética e entendendo que o melhor caminho é sempre o diálogo, a fim de promover o fim do cancelamento excessivo e dando início a uma era de aceitação, diferentemente do que foi exemplificado na série Black Mirror.