Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 09/09/2020

Na música “Metamorfose Ambulante” de Raul Seixas, o cantor cita que prefere ser uma metamorfose ambulante do que ter uma velha opinião formada sobre tudo. Vale ressaltar que com essa ideia ele busca evidenciar que está em constante transformação e sempre vai cometer erros, para assim construir novas opiniões. Diferentemente da canção, os indivíduos da atualidade não aceitam os erros cometidos por outros, e por isso criaram a cultura do cancelamento. Assim, por conta da constante perfeição que buscam nas pessoas, ocasionam discursos de ódio na internet e por vezes não resolvem, verdadeiramente, a problemática abordada.

Em primeiro lugar, cabe a análise da sociedade no século XXI. No livro “Sociedade do espetáculo” de Guy Debord, é abordada a realidade onde os humanos vivem tentando ser uns melhores que os outros enquanto divulgam a sua vida, basicamente como em um espetáculo, e o mesmo é visto nos dias atuais. Logo, a cultura do cancelamento surge visando achar os erros e desmistificar a perfeição supostamente propagada. Porém, vale evidenciar que o filósofo Schopenhauer defende a ideia de que os indivíduos nunca estão totalmente satisfeitos, por isso acusam e desmoralizam todos aqueles que não viverem de acordo com o que eles pensam.

Outrossim, é válido pontuar os efeitos gerados por essa cultura. Nessa lógica, é necessário lembrar que os “cancelados” são indivíduos como qualquer outro e que os discursos de ódio e haters despejados sobre eles podem tomar proporções avassaladoras. De acordo com o doutor em psicologia Leonard Goldberg, nesse cenário não existe uma “zona cinzenta”, ou seja, não há um meio termo entre as acusações e os acusados, segundo ele “não existe conversa ou escuta”. Dessa maneira, os efeitos, ao invés de causar reflexão e mudanças como para Raul Seixas, podem ser nocivos e levar as pessoas a saírem de suas redes sociais, como a blogueira Gabriela Pugliesi - que foi cancelada por fazer uma festa durante a pandemia- e precisarem de tratamento psicológico.

Portanto, são necessárias medidas capazes de atenuar a problemática. Para que isso ocorra, o Ministério da Justiça deve fiscalizar as denúncias feitas nas redes sociais por meio de um projeto de lei que irá punir os discursos de ódio despejados nos “cancelados” e buscar aplicar as medidas necessárias aos acusados, caso seja comprovada a gravidade do problema. Além disso, os agentes midiáticos devem propor campanhas de conscientização do mal que esses discursos ocasionam através da divulgação de palestras com especialistas. Para que a cultura do cancelamento seja feita de forma branda e que assim como Raul Seixas, os indivíduos aprendam a viver em constante metamorfose.