Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 30/09/2020

O conceito de entropia, da física, mensura o grau de desordem em um sistema termodinâmico. No entanto, fora das Ciências da Natureza, no que concerne à cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, percebe-se a configuração de um problema entrópico, em virtude do caos presente na questão. Nesse contexto, nota-se a configuração de um grave problema de contornos específicos, ora pela ausência de atividade governamental, ora pela impunidade, alimentando, assim, a existência desse cenário.

Mormente, ao analisar a cultura de cancelamento por um prisma político, nota-se forte influência da falta de dispositivos legais na sua permanência.  Segundo Umberto Eco, para que a tolerância ocorra, é necessário fixar os limites do intolerável. Nesse sentido, percebe-se uma lacuna, explicitada pela falta de uma legislação adequada para a construção de uma barreira que impeça o julgamento precoce do tribunal das redes, a fim de evitar que injustiças sejam corriqueiras no corpo social atual. Logo, sem base legal, ações de remediação são impossibilitadas, o que acaba por agravar ainda mais a problemática.

Consequentemente, com a falta de mecanismos legislativos, surge a questão da impunidade, que intensifica a gravidade desse quadro. Nessa perspectiva, a máxima de Martin Luther King de que “a injustiça num lugar qualquer é a ameaça à justiça em todo o lugar” cabe perfeitamente. Desse modo, tem-se como consequência a generalização da injustiça e a prevalência do sentimento de insegurança coletiva no que tange à cultura do cancelamento, uma vez que, seguindo a lógica de Martin Luther King, a injustiça produzida pela inércia política fomenta a continuidade dos atos acusatórios que ocorrem online, produzindo uma isenção de penitência que ameaça a presença da justiça em todo ambiente virtual.

Portanto, a transformação desse panorama se dá de forma clara e inequívoca: É fundamental a criação de leis que contemplem a questão do cancelamento que ocorre na internet, pelas comissões da Câmara e do Senado, em parceria com consultas públicas. Tais consultas devem ser amplamente divulgadas nas redes sociais, para o público em geral ter acesso e se posicionar. Além disso, em tais consultas, seria viável disponibilizar para download uma cartilha em PDF que mostrem os detalhes da lei proposta, para que a mazela não só ganhe respaldo legal, como também o faça de maneira consciente por parte da população, a fim de não haver mais impunidade.  Somente assim, o grau de desordem poderá ser nulo.