Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 09/09/2020
Nas histórias em quadrinhos, o super-herói Batman combate crimes sem a mediação dos sistemas governamentais encarregados oficialmente dessa ação. Dessa forma, o justiceiro encontra as suas próprias maneiras de garantir correção das atitudes controversas realizadas pelos outros personagens. Nesse contexto, a cultura do cancelamento presente na sociedade contemporânea mostra-se semelhante à ficção, visto que, por meio das redes sociais, os usuários tomam suas próprias medidas contra publicações, atitudes ou discursos que consideram errados. Logo, os indivíduos que agiram de forma insatisfatória são julgados e perseguidos sem direito à defesa. Portanto é imprescindível fomentar a análise de aspectos que permeiam a questão do cancelamento como a banalização dos debates e diálogos, bem como a expressão de um maior senso crítico por parte da população.
A priori, o cancelamento é responsável por cercear o diálogo entre diferentes pontos de vista sobe questões que precisam ser debatidas em meio à sociedade. Nesse cenário, o filósofo Foucault, em seu livro Microfísica do Poder, reflete acerca do pensamento de que os indivíduos formam grupos com um mesmo discurso tonando-se homogêneos. Dessa forma, quando uma dessas pessoas expõe um pensamento diferente, a comunidade volta-se contra ela. Portanto, tal reflexão mostra que a sociedade vive em uma prisão de convenções aceitas, o que dificulta a abrangência de novas perspectivas e incentivo a debates. Com isso, enquanto o cancelamento for escolhido ante aos diálogos, haverá uma cultura voltada à repressão da liberdade de expressão, bem como aos novos aprendizados e evoluções.
Ademais, é notório que a cultura do cancelamento expressa que os cidadãos estão com um pensamento crítico mais aflorado. Nesse sentido, recentemente, a modelo Gabriela Pugliesi foi cancelada por ter realizado uma festa em meio a uma pandemia - desrespeitando o isolamento social e a quarentena - colocando vidas em risco e, ainda, postando em suas redes sociais - o que poderia incentivar outros dos seus seguidores a fazer o mesmo. Por certo, é indubitável que a atitude de Pugliesi é criticável - não legitimando o cancelamento - e, com isso, é plausível que a sociedade esteja consciente das ações que precisam ser debatidas e não naturalizadas.
Infere-se, portanto, que as problemáticas acerca da cultura do cancelamento devem ser resolvidas. Assim sendo, urge que o Estado - órgão de maior responsabilidade -, por meio da intensa fiscalização das redes sociais, intervenha em situações de transgressões. Dessa forma, cabe a tal instituição julgar pessoas que comentam atos danosas à comunidade e não aos internautas, evitando assim cancelamentos. Por fim, o Brasil terá uma realidade cada vez mais distante da teorizada por Foucault.