Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 08/09/2020
O pensador Sigmund Freud, em seu texto “O futuro de uma ilusão”, alerta os leitores para o fato de que quanto menos o indivíduo conhece a respeito do passado e do presente, mais inseguro será com relação ao futuro. Ao estabelecer esse olhar psicanalítico como ponto de partida, para fundamentar a discussão acerca da cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, torna-se pontual compreender o atual cenário brasileiro. Assim, pode-se questionar a falta de um julgamento justo e baseado em fatos em situações de cancelamento online, bem como analisar o ódio disfarçado de ética sendo propagado na internet.
A partir dessa proposição inicial, é preciso esclarecer que a falta de fatos comprovados em um cancelamento leva a um falso julgamento público, em razão de possíveis acusações falsas. Inclusive, observa-se o perigo de um ataque informal a um indivíduo, pois este pode ser inocente e ser prejudicado injustamente, o que pode resultar em danos de carreira, de reputação e de saúde psicológica. Nesse sentido, não há dúvidas de que, como atesta Freud, o conhecimento determina o comportamento dos indivíduos. Isso significa que, com relação ao cancelamento, é inegável que um julgamento oficial e profissional seja fonte de opiniões sobre um determinado indivíduo ou empresa, ao invés de alegações em redes sociais feitas por qualquer usuário.
Ainda nesse contexto, não se pode esquecer a vasta propagação de discursos de ódio direcionados ao alvo do cancelamento, até porque eles não resultarão em uma solução eficiente para o problema. Aliás, fica claro que os cancelamentos raramente vão gerar consequências positivas e significantes, visto que é um método social de isolamento de um determinado indivíduo e não um movimento para criticar e reconstruir sua forma de pensamento. Nessa perspectiva, acentua-se a necessidade da crítica construtiva ao contrário do cancelamento, uma vez que, como alerta o filósofo Luc Ferry, virtude e ação desinteressada são inseparáveis. Em outras palavras, é preciso pensar na prática do bem comum, na medida em que pessoas com opiniões e atos julgados errados devem ser educadas e auxiliadas, não canceladas.
É preciso, portanto, promover ações que possam reverter esse quadro. Logo, é imprescindível que o Ministério da Educação (MEC) amplie as aulas de educação para o mundo online nas escolas. Isso ocorrerá por meio de discussões e palestras periódicas com o foco de ensinar aos alunos a como lidar com opiniões e valores diferentes dos deles, orientando uma reação construtiva e não baseada no ódio. Ademais, compete ao MEC promover a educação das gerações futuras, a fim de assegurar a amenização da cultura do cancelamento, seguindo o defendido por Freud.