Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 08/09/2020
A Pólis na Grécia Antiga representou um importante espaço público de discussões políticas, na qual diferentes posicionamentos eram valorizados por garantir a resolução de questões sociais. No entanto, o ascendente processo de intolerância virtual na contemporaneidade brasileira representa uma verdadeira desvalorização das diferentes formas de manifestação de pensamentos. Nesse sentido, a padronização do comportamento cibernético e os ataques na internet, em virtude de ideologias distintas, potencializam a cultura do cancelamento como a nova realidade digital do Brasil.
A obra Admirável Mundo Novo, produzida pelo autor Aldous Huxley, revela o processo de “robotização social” implementado por um governo autoritário. Desse modo, a personificação da ficção no panorama brasileiro é observada na padronização do comportamento cibernético, visto que tal atitude evita a reprovação da “platéia virtual” ou, até mesmo, a exclusão do mundo digital. A exemplo disso, o caso da influenciadora digital Gabriela Pugliesi que, ao decidir fazer publicações sobre uma festa em sua casa, em pleno isolamento social, foi duramente criticada por internautas, perdendo, ainda, vários seguidores.
Além disso, os constantes ataques na internet, motivados por formas de pensamentos distintos, têm crescido exponencialmente no meio virtual. Prova disso, foram as eleições de 2014 que resultaram em inúmeros ataques entres ambas as oposições políticas a partir da ampla divulgação de discursos de ódio na internet. Dessa maneira, observa-se o paulatino retrocesso democrático a partir do aumento da intolerância virtual, posto que não ocorre o respeito mútuo pelos diferentes posicionamentos manifestados. Logo, o Artigo 5 da Constituição Federal Brasileira, na qual a liberdade de expressão é determinada como um direito inalienável, passa a se tornar uma utopia constitucional.
Mediante os problemas supracitados, observa-se a importância de medidas de intervenção contra essa nova realidade virtual brasileira. Para isso, o Ministério da Cidadania, em conjunto com as Secretarias de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, deve atuar na implementação de programas virtuais sociais, os quais devem agir na discussão da importância da divergência ideológica e o seu devido respeito para a inserção de todas as comunidades no meio virtual. Além disso, também é importante a participação do Ministério da Justiça e Segurança Pública no amplo combate a ataques virtuais e discursos de ódio, os quais poderão ser diminuídos com a exclusão ou o bloqueio de contas desses agressores cibernéticos, aplicando, ainda, medidas punitivas que possam auxiliar no decréscimo da intolerância na internet e o retorno da liberdade de expressão como direito inalienável.