Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 03/10/2020

No período das civilizações antigas, era utilizada a Lei de Talião, baseada na expressão: “Olho por olho, dente por dente”, em que a punição era diretamente ligada ao erro cometido. De maneira análoga, vigora-se a tão conhecida cultura do cancelamento, a qual pessoas são boicotas virtualmente à medida que apresentam atitudes consideradas erradas ou ofensivas pelos internautas. Sendo assim, torna-se relevante o debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, uma vez que esse comportamento fomenta ofensas virtuais por meio da mídia e dificulta o aprendizado.

Em primeiro lugar, a má influência midiática é uma causa latente para o problema. Nesse sentido, sendo a cultura do cancelamento criada para ampliar a atenção para as denúncias sociais, hoje, tornou-se uma rede de insultos e humilhações virtuais. Dessa forma, a internet, meio de dispersão de informações, associada aos “reality shows”, aos sites e aos perfis de fofocas oportunizam o potencial de julgamento e de propagação de cancelamentos e de linchamentos virtuais. Diante disso, uma ferramenta usada para dar voz às injustiças sociais acaba silenciando e, muitas vezes, afeta negativamente a vida do “cancelado”, desde a perda do emprego, como no caso de Emmanuel Cafferty, até situações mais drásticas, como o suicídio da influenciadora digital Alinne Araújo.

Em paralelo, a prática de tal cultura inviabiliza o diálogo tornando-se outra causa para a problemática. Segundo o filósofo Hegel, a obtenção de conhecimento dá-se pelo confronto de conceitos diferentes, método denominado dialética. Sob essa lógica, é evidente a importância do embate de visões e ideias diferentes para a aquisição de novas ideias. No entanto, a cultura do cancelamento favorece a intolerância, visto que a ausência de escuta e de discussões sobre diversos assuntos, principalmente por meio das mídias sociais e das bolhas virtuais, atrelada a fotos e vídeos fora de contexto, além de notícias falsas não possibilitam a reflexão e, por conseguinte, a mudança de pensamento e aprendizado, indo de encontro com as ideias hegelianas.

É imprescindível, portanto, medidas que promovam o debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade atual. Para isso, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as escolas, promover espaços para palestras e conferências no ambiente escolar. Isso pode ser feito por meio de rodas de conversa no período extraclasse com professores, ativistas e influenciadores digitais a fim de que favoreça a discussão de temas como cancelamento virtual e linchamentos, discurso de ódio, além de abrir esses eventos à comunidade com o objetivo de fomentar a tolerância e empatia, dar oportunidade de aprendizado e possibilidade de ensino.