Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 08/09/2020
Em 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear uma prática virtual que já vinha acontecendo: o boicote a personalidades (famosas ou não) que cometeram alguma violência dentro e fora da rede social. Popularizado e difundido a partir de movimentos de denúncia como o #MeToo, que expunha casos e nomes de agressores sexuais, o movimento começou com o decorrer do tempo a mudar de cara: agora não é mais necessário ter cometido um crime para ser cancelado. O uso de um termo equivocado, uma expressão que reproduz preconceitos ou até mesmo o silêncio sobre um outro caso de injustiça já virou motivo de cancelamento. Há, é claro, quem defenda a cultura do cancelamento como meio de romper com a estrutura de poder que blinda pessoas privilegiadas na sociedade. Afinal, foi por meio dela que grupos minoritários conseguiram expor violações a direitos humanos e fazer sérias denúncias. Mas será que, a longo prazo, “cancelar” resolve problemas estruturais de desigualdade? Embora os nomes de grandes personalidades ganhem mais repercussão, não é preciso ser famoso para entrar para o time dos cancelados: um tempo atras, o americano de 47 anos Emmanuel Cafferty, que sequer tinha uma conta no Twitter, se viu engolido pela onda do cancelamento quando um vídeo seu fazendo um sinal de OK com as mãos para fora da janela do carro foi parar na internet. Isso porque, nos Estados Unidos, o gesto passou a ser usado com uma conotação racista por alguns fóruns online de supremacistas brancos em 2017. Bastou para a Liga Anti-Difamação, organização que combate há décadas discursos de ódio, incluir o gesto na lista de símbolos de ódio. Mas, como a própria liga alerta, seu uso no sentido cotidiano indicando “ok” e aprovação ainda é o mais comum, e por isso é preciso estar atento antes de classificar qualquer um que o faça como racista. Aparentemente, esse não era o caso de Cafferty, mas ele não teve a chance de se explicar antes de ser cancelado dentro e fora do espaço virtual: o episódio o fez perder o emprego.