Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 21/09/2020
Durante a Idade Antiga, em Atenas, a ágora era um espaço aberto para todos os cidadãos debaterem sobre política e decidirem os rumos da cidade. Contudo, na contemporaneidade, as redes sociais, principal meio para a exposição de opiniões, vêm sendo palco de atos de exclusão e discriminação de pessoas com posicionamentos que divergem do pensamento predominante. Sob tal ótica, a cultura do cancelamento é extremamente prejudicial para a democracia, visto que ela restringe o direito a fala e atua como uma forma de violência.
Inicialmente, o cancelamento de uma pessoa limita a sua cidadania. De acordo com Habermas, para uma sociedade ser justa, todos os grupos que a compõem devem ter voz ativa na tomada de decisões políticas. Paralelamente, segundo Mário Sérgio Cortella: “a concordância faz com que permaneçamos estacionados, mas a discordância faz com que cresçamos”. Diante disso, uma pessoa “cancelada” por uma atitude ou comentário considerado incorreto, dificilmente tem o direito a retratação garantido antes de sua discriminação. Nesse sentido, os preceitos básicos da democracia, como a diversidade de pontos de vista e o direito universal a liberdade de expressão, encontram-se prejudicados, porquanto não são aceitos posicionamentos contrários a ideologia hegemônica do grupo.
Outrossim, as pessoas que sofrem o cancelamento recebem danos emocionais graves. Em consonância com Pierre Bourdieu, a violência simbólica não é física, porém psicológica e faz com que a vítima se sinta a culpada. Concomitantemente, Friedrich Schiller afirma que: “a violência é sempre terrível, mesmo quando a causa é justa.” Dessa forma, esse fenômeno, que se caracteriza pela publicação ou compartilhamento de mensagens criticando e acusando alguém por alguma atitude tida como inaceitável, faz com que esse indivíduo se sinta merecedor dessa exclusão e o detentor de uma opinião injusta. Por conseguinte, ocorrem prejuízos na saúde mental devido ao recebimento de palavras de ódio e à sensação de não agir conforme os padrões sociais.
É mister, portanto, tomar medidas que aumentem o respeito e o diálogo entre aqueles que têm visões de mundo diferentes. Logo, cabe ao Poder Executivo Federal iniciar uma campanha nas redes sociais oficiais do governo, como o “Facebook”, “Twitter” e “Instagram”, para orientar sobre os prejuízos oriundos da cultura do cancelamento, por meio da apresentação de explicações de psicólogos sobre os impactos emocionais causados por ela. Ademais, serão publicados vídeos de celebridades brasileiras da música, esporte e dramaturgia falando sobre a importância do livre debate para a democracia. Espera-se, assim, amenizar a violência simbólica que acontece no ambiente virtual e dar voz ativa para os diferentes grupos a fim de atingir a sociedade justa tal como afirmou Habermas.