Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 07/09/2020
Em 2017, o movimento MeToo - uma “hashtag” nas redes sociais contra o assédio sexual, que expunha eventos e nomes de agressores - ganhou bastante repercussão entre artistas de Hollywood, o que contribuiu para encorajar outras vítimas de agressão a denunciarem seus casos, e, ademais, serviu como estopim para a criação do que é conhecido hoje como cultura do cancelamento. Todavia, observa-se que essa corrente se manifesta de maneira diferente nos dias atuais, visto que transforma os usuários em juízes das ações de outros indivíduos, deste modo demonstrando ineficácia em sua estratégia de punição e provoca a desumanização dos indivíduos cancelados.
Primeiramente, é evidente que, independente da proporção de seu erro, a figura que o cometeu começa a ser vista como uma abominação, para que assim, os justiceiros se deem o direito de punir o acusado de forma desproporcional. Em conformidade, é possível exemplificar o crime histórico contra os judeus na Alemanha Nazista, em que, no contexto da época, o judeu foi ligado à figura do rato, associado a aspectos negativos como a sujeira, a mentira e a corrupção, e, justificado por esse motivo, o Holocausto foi promovido pelo nazismo de Adolf Hitler. Igualmente, os canceladores tratam de demonizar a vítima do linchamento, a fim de que haja uma escusa para a agressão em massa sobre a pessoa.
Por conseguinte, é importante analisar que a abordagem punitiva aderida pelos internautas não é benéfico para o corpo social, e, portanto, somente contribui para aumentar a disseminação de ódio dentro do espaço virtual. Analogamente, pode-se citar o filósofo Michel Foucault, e sua crítica ao sistema penitenciário brasileiro, onde ele diz que é considerado pelas autoridades mais fácil excluir do que buscar conviver, é mais conveniente esquecer, do que ressocializar. Nesse sentido, é possível comparar os cancelamentos com os presídios do país, já que, ao invés de tentar reparar o erro de maneira educativa visando a mudança de atitude do culpado, a maioria dos que afirmam estar fazendo justiça, escolhem amaldiçoar e excluir o incriminado do corpo social.
Dessarte, é evidente que a cultura do cancelamente deve ser reanalisada, uma vez que é prejudicial ao indivíduo e a para a população de um modo geral. Diante disso, é mister que o Ministério da Educação (MEC) crie, por meio de verbas governamentais, campanhas publicitárias nos meios midiáticos que exponham os maléficios e falta de utilidade do cancelamento online, sugerindo que o usuário procure meios eficientes de denúncias formais. Só assim, a cultura do cancelamento será repensada, e ademais, se tornará um agente transformador nas mídias sociais.