Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 06/09/2020

A narrativa trágica “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, sugere ao leitor “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Ao seguir essa sugestão, como ponto de partida para fomentar a discussão sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, é necessário encarar a realidade e denunciar as consequências maléficas que a imobilidade da ação do Estado gera. Assim, não há dúvidas de que é preciso repensar como a negligência estatal afeta o cenário, bem como a crise de valores, ambos, ao não priorizar o pensamento crítico da população para lidar com questões polêmicas como as discussões que englobam esses debates. Nessa perspectiva, é preciso ressaltar que uma sociedade punitivista dificulta fenômenos que buscam questionar ações problemáticas, já que o debate acaba se tornado agressivo em busca de uma condenação, e não da melhoria comportamental. Aliás, não se pode negar que o posicionamento social cria consequências maléficas, como a falta de empatia e cuidado com o próximo, que facilita ainda mais o julgamento precoce e a necessidade de punição. Em função disso, ganha força a ideia de que é preciso, parodiando Saramago, buscar a compreensão, quando a razão deixa de ser o norte do comportamento dos indivíduos. Dessa forma, fica claro que é necessário apoiar a mudança comportamental das novas gerações levando o debate do problema para as núcleos familiares. Além disso, é preciso ressaltar que o Estado brasileiro não prioriza a resolução da questão, em virtude da dificuldade de se adaptar para as necessidades da nova geração. Inclusive, ao lançar o olhar sobre a realidade, verifica-se que as instituições educacionais não investem em uma educação voltada para ajudar os alunos a se posicionar de forma autônoma. Desse modo, ajudam com a consolidação de um cenário em que são facilmente enganados e propensos a “cancelarem” outras pessoas, ou, como sugere Zygmunt Bauman, os atores sociais, condenados à cegueira moral, tendem a agir na irracionalidade. Logo, constata-se que o menosprezo dessas instituições sociais à promoção de meios educacionais que valorizem a formação de opiniões contribuem para o caos no debate digital que o país atualmente se encontra. Sendo assim, é visível a necessidade de mudança para que o cenário brasileiro se distancie da história ficcional de Saramago. Inicialmente, cabe ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos efetivar rodas de conversas com as famílias buscando denunciar o sentimento revanchista, com o intuito de induzir uma reflexão social. Ademais, compete ao Ministério da Educação a realização de palestras em ambientes escolares demonstrando o impacto dos julgamentos precipitados nas discussões na internet, buscando a construção de uma consciência social que priorize a lógica no debate e o julgamento imparcial. Com essas ações realizadas, o Brasil melhorará a qualidade de vida das gerações futuras.