Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 06/09/2020
O sociólogo estadunidense Donald Levine advoga, na primeira parte de seu livro “Visões da tradição sociológica”, que a sociedade contemporânea apresenta como característica marcante visão fragmentada do mundo. Ao tomar essa percepção como ponto de referência para pensar sobre a cultura do cancelamento, nota-se que, ao seguir a tendência de tratar como coletiva uma concepção moral individual, há uma violação da liberdade de expressão concedida pela Constituição de 1988. Desse modo, é determinante analisar os malefícios que a cultura do cancelamento proporciona para suas vítimas, enfatizando seu caráter moralista, bem como questionar como o sistema de educação atual pode contribuir para a persistência dessa problemática.
Em face desse primeiro questionamento, é preciso enfatizar a nocividade da cultura do cancelamento na sociedade hodierna. Tal prática, que consiste na perseguição e humilhação pública de alguém pelas redes sociais, por ter postado algo não considerado como correto por um seleto grupo de pessoas da plataforma pode prejudicar a vítima tanto profissionalmente (pela perda de oportunidades de emprego na investigação do perfil do candidato) quando socialmente, fruto do isolamento perpetuado pelo ato. Seguindo o raciocínio de Donald Levine, essa atitude moralista, de levar a opinião de poucos como um consenso universal, leva à intolerância, infringindo a liberdade de expressão e o direito de defesa. Assim, fica claro a urgência de “cancelarmos” a cultura do cancelamento.
Convém ainda lembrar, nesse contexto, que o ensino cartesiano implementado nas escolas brasileiras pode contribuir para o agravamento desse quadro, visto que a valorização do conteudismo em detrimento à formação cidadã prejudica a construção de habilidades como senso crítico e empatia nos jovens. Essa ideia coaduna-se ao fato de que, para Zygmunt Bauman, o indivíduo tende a agir na irracionalidade. Em outras palavras, é perceptível que a falta de uma abordagem educacional ampliada para os âmbitos interpessoal e emocional deturpa a visão de coletividade e respeito dos alunos, levando-os a praticar atos como o bullying e o cancelamento pelas redes sociais.
Por fim, entende-se que é necessário reunir esforços para combater essa problemática. Logo, a fim de atenuar o problema, cabe ao Ministério da Educação elaborar atividades que incluam a prática de tolerância e o trabalho em equipe. Essa nova grade, que contará com debates sobre Direitos Humanos nas aulas de filosofia e incentivo a tarefas em grupos nas mais diversas disciplinas, por exemplo, garantirão a formação de alunos cidadãos, prontos para lidar com a contemporaneidade diversificada e globalizada do século XXI. Dessa forma, pode-se pensar em um futuro em que esse atroz cenário seja superado, ampliando a visão fragmentada do mundo apontada por Donald Levine.