Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 04/09/2020

Com a chegada da Globalização, a inserção das novas tecnologias de informação no cotidiano dos usuários se tornou cada vez mais presente, de maneira a alterar o funcionamento de suas relações sociais. Nesse sentido, a contemporaneidade possui, entre muitas facetas, o uso das redes sociais como mecanismo punitivo de condutas moralmente erradas, exemplificando a chamada “cultura do cancelamento”. Assim, há a configuração de uma problemática, causada não só pela sensação do dever de justiça - afetando o prestígio social -, mas também pela desconsideração da capacidade de mudança dos influenciadores digitais.

Inicialmente, é válido ressaltar a questão da presença da justiça social no cancelamento virtual, que afeta a imagem das figuras públicas. Isto é, de acordo com o filósofo Pierre Bordieu, quando há a tentativa de desprestigiar o status social de um indivíduo ocorre a violência simbólica. Nessa perspectiva, tem-se que os internautas, pela incorporação de um senso de justiça, realizam tal violência, uma vez que passam a agir com uma conduta virtual punitiva para descontruir o status social obtido pela celebridade e, assim, findar certo comportamento nas redes. Desse modo, se estabelece uma política preventiva no que tange a polidez do discurso público de figuras de relevância midiática, a fim da garantia de sua posição social.

Além disso, é importante mencionar o enfoque virtual nas ações moralmente erradas, de maneira a desconsiderar a mudança de comportamento da figura pública e as suas boas condutas. Segundo o biólogo Charles Darwin, a Evolução é o processo em que ocorrem mudanças ou transformações nos seres vivos ao longo do tempo. Nessa óptica, os usuários, numa tentativa de realização de justiça, impedem a consolidação da teoria darwinista, visto que, no contexto cibernético, impossibilitam o diálogo e a capacidade de alteração de comportamento por parte daqueles que são digitalmente cancelados – lembrados por sua má conduta. Logo, há configuração de um ambiente hostil que carece de uma intervenção.

Portanto, é imprescindível que medidas sejam tomadas para a dissolução dessa conjuntura. Para tal, o Ministério da Cidadania deve, por meio da criação de uma aba em sites e aplicações, promover salas de debates sobre casos de relevância midiática, a fim de romper com a cultura do cancelamento e estimular a empatia e a cautela na divulgação de informações no meio virtual. Essas salas funcionariam de modo a criar um ambiente de discussão a respeito das condutas, passado e presente de uma figura pública e, nesse viés, entender de maneira abrangente os casos de cancelamento virtual da atualidade. Por conseguinte, a cultura do cancelamento seria findada na sociedade brasileira contemporânea.