Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 03/09/2020
Segundo o historiador Eric Hobsbawn, em sua obra “A era dos extremos”, no século XX, ocorreu uma profunda revolução moral e cultural, uma dramática transformação das convenções de comportamento social e pessoal. Ao considerar essa percepção histórica como ponto de partida para tecer argumentos sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea, observa-se que esse tipo de atitude tem se mostrado cada vez mais frequente, em razão do alcance das informações na era digital. Nesse sentido, é preciso analisar os impactos sociais dessa cultura de cancelamento, bem como esclarecer a eficiência dessas ações.
A partir dessa contestação inicial, é preciso explicitar que, no mundo atual, discursos e propagandas alcançam milhares de indivíduos, devido à evolução das redes sociais na era digital. Inclusive, nota-se a sociedade contemporânea mais intolerante com as ações que desviam do politicamente correto, evidenciado pelo excesso da cultura de cancelamento, reflexo dessa intolerância. Por esse ângulo, não há dúvidas de que, como alerta, Zygmunt Bauman, os indivíduos contemporâneos tendem a agir na irracionalidade. Isso significa que, com relação a esse boicote excessivo, é evidente que não é utilizado de forma racional, já que muitos são feitos sem embasamento fático, com o objetivo de apenas denegrir a imagem de uma empresa ou de alguém, o que prejudica a seriedade desse tipo de ação.
Ainda nesse contexto, não se pode esquecer de que a eficiência da política do cancelamento é questionável, até porque, o resultado a curto prazo é efetivo, mas o de longo prazo, não. Aliás, fica claro que influenciadores são “cancelados” diariamente por atitudes passadas, não condizentes com as atuais, o que evidencia a ausência de critério e eficiência dessa cultura. Nessa perspectiva, como alerta o filósofo Luc Ferry, é preciso entender que virtude e ação desinteressada são inseparáveis. Posto isso, basta lançar um olhar sobre a realidade para constatar que a falta do bem comum na sociedade atual, tem sido determinante para o uso equivocado do cancelamento, em virtude de estar sendo um meio para agressões a indivíduos e não uma forma de combate às ideias de ódio, como deveria ser.
É importante, então, buscar um caminho que possa reverter esse processo. Nesse aspecto, é imprescindível que as empresas de redes sociais combatam os cancelamentos que objetivam denegrir a imagem de outrem, com buscas por usuários que perpetuam esse tipo de ódio, para que outras pessoas não perpetuem algo que visa agredir terceiros. Outra medida necessária, a ser implementada pelo poder público, deve conscientizar a sociedade sobre o que deve ser a cultura do cancelamento, junto com as empresas de redes sociais, com o propósito de combater preconceitos e discursos de ódio. Com essas ações, há chances de tornar o cancelamento mais eficiente e menos supérfluo.