Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 04/09/2020
A série “Black Mirror” retrata uma distopia, abordando sobre diversos temas relacionados às consequências do avanço tecnológico para a sociedade, incluindo a cultura do cancelamento. Esse recorte cinematográfico ilustra uma realidade observada frequentemente nas redes, na qual internautas sofrem um linchamento social devido algum ato considerado errado pelos “canceladores”. Nesse contexto, é necessário entender de que forma a sociedade contemporânea fomenta essa cultura, bem como avaliar as consequências e a efetividade do cancelamento para indivíduos.
Em face desse questionamento inicial, é preciso esclarecer que o modo de vida contemporâneo é acelerado e efêmero, em razão da difusão da internet e das mídias sociais. Diante dessa conjuntura, observa-se que essa sociedade foi construída em um contexto de liquidez, como elabora o sociólogo Zigmund Bauman, em sua obra “Vidas Líquidas”, se tornando individualista e em constante busca pela perfeição. Nessa lógica, é construída a cultura do cancelamento, uma vez que o indivíduo não aceita opiniões divergentes da própria e parte para julgamentos precipitados acerca do outro, levando ao linchamento nas redes. Por conseguinte, fica claro que o ato de cancelar está diretamente ligado aos valores atuais, visto que este se relaciona à intolerância perante erros e opiniões divergentes.
Ainda nessa linha, convém analisar a efetividade do cancelamento, assim como as consequências deste para o meio social. Aliás, não se pode negar que essa cultura não busca ensinar a fim de mudar um comportamento, mas excluir o indivíduo, o que não beneficia a sociedade em geral. Sob essa ótica, ressona a ideia de Michel Foucault, presente em sua obra “Vigiar e Punir”, de modo que os internautas das redes funcionariam como o Panóptico, que tudo vê, e o cancelamento como uma forma de punir aqueles que desviam da opinião ou do comportamento geral. Dessa forma, compreende-se que o cancelamento gera a exclusão social de pessoas com pontos de vistas diferentes, ou que cometeram algum tipo de erro, se revelando como um instrumento de punição e intolerância.
Diante do exposto, urgem medidas para solucionar a problemática. Primeiramente, o Ministério da Educação, por ser responsável pelo ensino no Brasil, deve implantar aulas no Ensino Fundamental e Ensino Médio que abordem sobre o respeito, a tolerância e o diálogo, a partir de debates e palestras, a fim de formar uma geração menos individualista e que aceite e dialogue com opiniões divergentes e com o erro. Ademais, cabe à especialistas, como psicólogos, criar uma campanha contra a cultura do cancelamento, por meio da postagem de vídeos sobre o assunto nas mídias sociais, com o objetivo de alertar a população sobre os perigos dessa prática. A partir dessas ações, espera-se que os problemas relacionados ao cancelamento, evidenciados em “Black Mirror”, deixe de ser uma realidade.