Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 02/09/2020
Em suas elaborações acerca da dialética, Hegel discorre sobre o poder o discurso na solidificação dos costumes e da moral. Segundo o autor, o embate entre ideologias conflitantes é o motor da transformação da história e da sociedade. Partindo desse pressuposto teórico, pode-se compreender, na atualidade, o fenômeno da cultura do cancelamento, que se apresenta como uma atitude de compartilhamento ideológico, promotora da justiça e da inclusão social. Diante disso, cabe questionar a efetividade desse processo, considerando os objetivos aos quais se propõe, além de avaliar os motivadores internos e externos dessa conjuntura.
Inicialmente, compreende-se que o cancelamento surgiu como uma forma de reivindicar posicionamentos de empresas e de figuras públicas, a fim de firmar movimentos sociais e defender minorias. No entanto, é importante ressaltar que os ataques digitais, de modo geral, apenas alinham as instituições a um discurso publicitário de igualdade, mas não as convence de contratar mais grupos marginalizados ou a mudar políticas ambientais, por exemplo. Desse modo, em contraposição ao pensamento hegeliano, concentrar esforços apenas no âmbito do discurso, como faz o “cancelamento digital”, é insuficiente para gerar mudanças significativas na estrutura da sociedade.
Outro aspecto a ser considerado é a massificação de ideais observadas na contemporaneidade, em um contexto de exposição pessoal exagerada e, por extensão, maior necessidade de validação. Esse aspecto, o qual é discutido por Zygmund Bauman em “Modernidade Líquida”, é refletido pela rápida disseminação de enunciações de repulsa ao “cancelado”, o que pode ser entendido como uma demonstração de medo dos indivíduos de serem também excluídos, caso não se alinhem integralmente a certos lados da discussão. Com isso, gera-se uma ditadura comportamental que tolhe o debate, uma vez que que a preocupação com não aparentar ser uma pessoa “imoral” e, assim, ser melhor aceito por uma comunidade, se sobrepõe à valorização diálogo quanto a melhores perspectivas para todos.
Desse modo, urgem medidas que harmonizem o ambiente virtual no Brasil. Para tanto, é dever do Ministério da Educação, em parceria com a Mídia, elaborar um amplo programa de Solidariedade Digital, por meio de debates, de projetos protagonizados pelos alunos e da divulgação de melhores mecanismos de luta social, ressaltando as esferas democráticas, com o fito de desestimular a cultura de cancelamento e incentivar reivindicações profícuas. Além disso, compete a esse mesmo Ministério acrescentar, ao currículo regular dos alunos, aulas voltadas para a ética no ambiente digital e para os efeitos comportamentais da dinâmica contemporânea, visando a uma atitude mais saudável na internet. Feito isso, poder-se-à tornar o universo digital brasileiro mais justo e pacífico.