Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 30/09/2020
Segundo o filósofo John Locke, é dever do Estado garantir a execução dos direitos naturais do homem, dentre eles o direito à igualdade. Nesse sentido, a cultura do cancelamento surgi como um movimento que possui a intenção de responsabilizar alguém que tenha violado esse direito - por intermédio da reprodução de falas ou ações preconceituosas. É um movimento frágil, que apesar do impacto positivo - como o fortalecimento das pautas sociais nas mídias - é facilmente convertido em linchamento virtual devido à forma como é realizado, além de promover pouca mudança de ordem social. Urge portanto, mudar essa realidade para que a harmonia do corpo coletivo seja restaurada.
É imperativo abordar, em um primeiro, como o ato de “cancelar alguém” inibe a possibilidade de um diálogo pacífico. Um editor do New York Times foi demitido ao publicar um artigo do senador Tom Cotton - defendendo o uso do Exército na repressão das manifestações pelos direitos dos negros - devido à forte repercussão negativa. Ou seja, o movimento de contestação se baseia na lógica de crime e castigo, pouco se atentando para o objetivo principal: a reeducação. Ao optar por substituir a troca de ideias pelo exílio do “condenado”, as mazelas sociais - como o racismo - não são contestadas ou modificadas, como aconteceria se o ataque fosse substituído pela argumentação pautada na exposição da importância das manifestações para desenraizar os preconceitos.
Sob esse viés, é evidente que as conquistas da cultura do cancelamento pouco impactam na estrutura da sociedade, demonstrando a necessidade de aprimoramento. Em dois mil e dezoito, após um grande movimento de usuário das redes sociais, uma música que fazia apologia ao estupro foi banida das plataformas online. Contudo, encaminhar uma queixa a uma empresa privada - como o YouTube - não deve ser a única ação de quem repudia essa atitude. Apresentar uma ação judicial baseada no ato ilegal de fazer publicamente apologia a fato criminoso inspiraria o debate público a refletir sobre medidas para inibir esse tipo de comportamento, tal qual tornaria explicito a diferença entre declamar uma opinião pessoal - mesmo que impopular - e cometer um crime.
Diante do exposto, conclui-se que a cultura do cancelamento deve ser regulamentada para que a busca da erradicação de atos preconceituosos não se limite à desordem social dos linchamentos. Logo, cabe ao Ministério da Cidadania - por meio de verbas governamentais - realizar palestras em centros educacionais com o objetivo de instruir os indivíduos a respeito da importância da substituição dos ataques pessoais pelo debate baseado em críticas construtivas, bem como ensiná-los a identificar quais situações são passíveis de medidas legais, para que a intervenção do Poder Judiciário contribua na busca do progresso social. Com tais medidas, as mudanças esperadas serão concebidas com êxito.