Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 01/09/2020
Durante a Idade Média, a Igreja Católica criou a Santa Inquisição, uma instituição que perseguia hereges e os queimavam em praça pública para servir de exemplo aos demais. Esses episódios eram uma espécie de espetáculo, na qual a população debochava e ajudava a Igreja a torturar as vítimas. Na sociedade contemporânea, esse prazer pelo linchamento passou para o mundo virtual, e adquiriu a conotação de cancelamento, fenômeno caracterizado por um surto coletivo emocional em que as pessoas são rebaixadas aos seus erros sem ter o direito de se defender.
Primeiramente, vale destacar uma teoria trabalhada pelo sociólogo francês Èmille Durkheim, chamada de fato social, na qual ele afirma ser uma maneira coletiva de agir e pensar, dotada de generalidade. Nesse caso, a cultura do cancelamento representa uma ideia de julgamento vulgarizado em que os usuários da internet se sentem juízes. Desse modo, quando alguma pessoa, principalmente famosa, pratica alguma atitude ruim ou diz algo desagradável, ela passa a sofrer uma onda de ataques à sua reputação, que pode, inclusive, comprometer o seu futuro. Nesse caso, é importante relembrar o ocorrido com o americano Byron Reckful, um astro do mundo dos games que se suicidou após ser massacrado virtualmente simplesmente por pedir a namorada em casamento pelo twitter.
Assim sendo, talvez seja possível encontrar uma explicação para essa satisfação de criticar a vida alheia na Grécia antiga. Ainda na Atenas clássica, o filósofo grego Aristóteles trabalhou o conceito de catarse, que significa uma purificação da alma através de uma forte descarga emocional. Isso é exatamente o que ocorre na cultura do cancelamento, já que os “juízes” da internet se comportam como se fossem perfeitos, moralmente corretos e puros a partir do apedrejamento virtual que fazem com pessoas que cometem erros cotidianos. Em vista disso, pode-se perceber que o problema está em criticar pessoas, e não ideias, pois são as ideias que são passadas através do tempo, então são elas que devem ser debatidas e modificadas para melhor.
Portanto, medidas são necessárias para solucionar o impasse. Para isso, é necessário que o Ministério da Educação, inclua na base nacional curricular, palestras e debates sobre a cultura do cancelamento nas aulas de filosofia e sociologia, no intuito de aguçar o senso crítico dos alunos, de modo que eles adquiram consciência das consequências geradas pelo linchamento virtual. Além disso, é importante que as mídias sociais, desenvolva um mecanismo que impeça os perfis de serem atacados com mensagens de ódio, e, automaticamente, bloqueie a conta do emissor das mensagens sob pena de multa. Destarte, com uma nova geração de pessoas conscientes e preocupadas, e dispositivos que dificultem ações violentas, a cultura do cancelamento poderá ser cancelada.