Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 01/09/2020

Assim como na sociedade colonial brasileira havia os pelourinhos - local de linchamento e punições públicas -, há na sociedade contemporânea um mesmo local, mas com endereço diferente. Com o uso de novas tecnologias é possível divulgar atitudes erradas e ter a justiça alcançada por meio de uma simples publicação de rede social. Porém, essa facilidade pode trazer julgamentos desproporcionais à realidade, fazendo com que haja consequências do imediatismo virtual a um indivíduo com carência, apenas, de um diálogo.

Em uma primeira análise, em destaque aos fatos sociais de Durkheim, é indubitável a sociedade seguir uma padrão a partir do meio ao qual se insere. Essa regra é aplicável ao meio virtual, em especial quando o “cancelamento” de um indivíduo é uma pauta. Entretanto, antagonizando um julgamento comedido nos trâmites da lei, o réu não é julgado por uma ação. Em suma, um linchamento virtual ou “cancelamento” é feito por milhares de pessoas, que relacionam uma atitude infeliz a um indivíduo, e moldam a vida dessa pessoa a partir da ausência de um recomeço ou da oportunidade de repensar alguma atitude influenciada pela ignorância.

Além disso, ao considerar a democratização do diálogo cada vez mais ascendente no Brasil, é, também, evidente a falta de discernimento do impacto que um simples comentário em uma rede social pode causar. Paralelamente a afirmativa “disciplina é liberdade” de Renato Russo, a cultura do cancelamento fere a liberdade individual. Visto que uma pessoa é julgada em um meio sem regras morais e legais, e transforma a internet em uma prisão implícita, fonte de consequências reais, como a recorrência de problemas psicológicos.

Torna-se claro, portanto, a importância de uma conscientização, em massa, sobre o poder da relação entre atitudes humanas e o seu julgamento no meio virtual. Nessa lógica, é necessário, a partir do governo, investimento em palestras nos meios populares (como em escolas, centros de lazer ou nas próprias redes sociais), bem como punições mais assertivas, proveniente dos órgãos públicos responsáveis, para determinada infração ou crime. Para que assim, a justiça seja responsabilidade do Estado e a sociedade possa gozar dos benefícios da evolução tecnológica, com a consciência do seu impacto na vida das pessoas.