Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 04/09/2020

No livro “O Sol é para todos” de Harper Lee, o personagem Atticus, um advogado criminalista, decide por defender um negro acusado de estupro. Ao discorrer da narrativa, é explícito que Atticus passa a ser rejeitado pela população do Alabama, haja vista que para tais cidadãos o fato dele defender um negro é um motivo de desprezo e vergonha familiar. Similarmente a obra encontra-se a sociedade brasileira, a qual constantemente utiliza-se da cultura do cancelamento para rechaçar seus indivíduos. No entanto, tal cultura, principalmente com atuação no meio cibernético, faz com que os assuntos complexos passem a ser tratados de forma rasa, sem discussões profundas à cerca do tema. Isso porque, para muitos, a simples exclusão do indivíduo cancelado já é suficiente.

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que, segundo a máxima popular: “a internet não esquece”. Nesse sentido, é visível que o cancelamento do youtuber Cocielo proveio devido tal máxima. Isso porque, “tweets” de 2010, 2013 e 2018 do humorista foram resgatados da internet  e repudiados por vários internautas devido ao seu teor racista. Além disso, a repercussão do tema foi tamanha que o rapper DK utilizou-se do acontecimento na composição da letra da música “Favela Vive” - “Cocielo fez piada, mas no beco ninguém riu, tava ensinando racismo pra um público infantil”.  No entanto, após o ocorrido o engajamento contra o racismo demonstrou ter perdido a sua força, como se o fato do youtuber ter sido “cancelado” tivesse solucionado a mazela social a respeito do preconceito.

Ademais, segundo Confúcio: “A humildade é a base sólida de todas as virtudes”. Contudo, com a constante permanência da cultura do cancelamento, o indivíduo não tem a possibilidade de ser humilde e se desculpar perante seu erro, pois a sociedade não lhe dá essa oportunidade. Sendo assim, o crescimento social é impedido, já que as pessoas não tem a chance de errar e fazer os outros aprenderem com seus erros.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para amenizar o quadro atual. Para que os cidadãos não diminuam assuntos complexos por meio da cultura do cancelamento, urge que o Ministério da Educação proponha debates sociais na grade escolar, sendo isso, feito por meio de verbas governamentais. Desse modo, os indivíduos, logo na infância, poderão perceber o real valor dos grandes problemas sociais presentes no mundo sem se contentar apenas com reproduzir opiniões  e cancelar pessoas. Somente assim, o ato de rejeitar um indivíduo devido aos seus atos, como ocorrido na obra de Harper Lee deixará de ser tão compatível a realidade brasileira.