Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 02/09/2020
Durante a Idade Média, a Igreja Católica, objetivando a manutenção do poder de todas as esferas sociais julgava e executava qualquer pessoa que representasse perigo ao seu monopólio por meio do Tribunal da Inquisição. Entretanto, mesmo após cinco séculos, o meio virtual proporciona atualmente a presença de uma nova prática atuante com o fito de julgar e silenciar opiniões divergentes, a chamada cultura do cancelamento. Nesse viés, tal comportamento é potencializado não só pela impunidade dos crimes cibernéticos, mas também pela negligência estatal, e deve ser superado.
Em primeira análise, é importante citar que o ato de cancelar personalidades pela internet está relacionado à possibilidade de agir de modo incivil e isento de punições. Nesse sentido, a condição de agir no anonimato a partir da criação de perfis falsos proporciona a propagação de discursos de ódio e sublevação para boicotar marcas e pessoas. Sob essa perspectiva, pode-se citar o caso da cantora Anitta, vítima desse fenômeno por não se posicionar nas eleições presidenciais de 2018. Consoante a isso, a carência de instituições destinadas à investigação e retificação de crimes ocorridos nesses espaços contra um campo fértil para a disseminação de intolerância e garante à população a perda de sua autonomia, como no período da Inquisição, uma vez que a qualquer momento seu ponto de vista pode ser o pivô do seu cancelamento.
Em segunda análise, é evidente que a negligência estatal fundamentada no silenciamento é um dos fatores que otimizam o episódio em rede. Nesse prisma, mesmo que o direito à inviolabilidade da imagem é previsto por lei na Constituição Federal, fica claro que o Poder Público não cumpre seu papel enquanto agente fornecedor desses benefícios. Isso porque, de acordo com uma publicação do jornal Folha de São Paulo, mais de 30% dos internautas já foram ofendidos em discussões no ciberespaço. Logo, esse panorama permite analisar que a internet não é um ambiente seguro, uma vez que o Estado não fornece mecanismos específicos e de fácil acesso para que haja a efetivação da integridade moral, o que condiciona a permanência dos direitos somente no papel.
A partir dos fatos supracitados, faz-se necessário que o Ministério de Mídias e Tecnologias promova a criação de uma central de ouvidoria especializada em receber denúncias de crimes relacionados à internet, como os discursos de ódio e a intolerância. Desse modo, esse projeto deve ser efetivado por meio da isenção fiscal de empresas que destinem recursos a projetos de combate à violação dos direitos em meio cibernético e sua divulgação deve ser realizada a partir de aplicativos como o Facebook. Com isso, a finalidade de tal atuação é a superação da cultura do cancelamento, para que em um futuro próximo, ela seja apenas uma lembrança histórica, como o Tribunal da Inquisição.