Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 31/08/2020
Segundo o pensamento do filósofo Nietzsche, em sua obra “Além do Bem e do Mal”, toda moral só é estabelecida socialmente e originada por meio do perigo e do medo. Da mesma forma, a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea segue um pensamento análogo ao de Nietzsche, em que a moral só será compreendida no indivíduo, caso esse seja humilhado e repreendido socialmente por uma grande massa e, por consequência, a “justiça” estará sendo feita, mesmo que por rede social. Dessa forma, cabe analisar se essa cultura é de fato uma justiça ou um instrumento de humilhação.
Em princípio, a cultura do cancelamento segue a mesma natureza da inquisição na Idade Média, a qual era realizada como forma de “disciplinar” a sociedade de atos considerados pecaminosos, mas ao mesmo tempo, possuía à finalidade atrativa para os demais públicos de ver a humilhação ou até a morte de um indivíduo. Diante disso, apesar da evolução social e o entendimento do que de fato é um crime e como penalizar o infrator, a cultura do cancelamento é vista como forma de justiça com as próprias mãos, a qual procura sempre um desvio moral de algum usuário de relevância nas redes sociais e se aproveita disso para fazer de sua humilhação um ato atrativo para milhares de pessoas e, com isso, acreditam estar “melhorando” a sociedade e penalizando o infrator, mesmo que o Estado não o veja da mesma forma, não se importando em debater tais “desvios morais” com o público.
Ademais, a cultura do cancelamento teve um papel fundamental na promoção de discursos de minorias que sofrem diversos preconceitos nas redes e em demais mídias, e como resultado trouxe mudanças de comportamento de diversos meios, as quais tiveram que se adaptar para serem aceitas novamente.Contudo,apesar do cancelamento proporcionar o esclarecimento de diversas problemáticas, as quais muitas vezes eram negligenciadas pelas grandes indústrias e influências, como o machismo e o racismo, a cultura do cancelamento não torna-se um instrumento de educação, pois o indivíduo cancelado passa a se comportar de forma diferente apenas nas redes sociais e frente as câmeras por conta do medo, no entanto, suas ações continuam as mesmas de antes. Dessa forma, tornando-se apenas uma forma de humilhar e de proporcionar medo, mas não de conscientizar os indivíduos.
Portanto, essa cultura contemporânea não pode ser vista como meio de educar e melhorar as ações dos indivíduos. Dessa forma, o Ministério da Educação aliado com os principais influenciadores digitais devem promover o debate nas instituições de ensino sobre o real objetivo do cancelamento e qual a melhor forma de promover uma conscientização social que não seja por meio do medo e da humilhação. Além disso, ressaltar a importância do debate em qualquer espaço e como realiza-lo, a fim de que Nietzsche e sua ideia de estabelecimento da moral por meio do medo não se concretize.