Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 31/08/2020
No episódio “Odiados pela nação”, da série antológica de ficção científica “Black Mirror”, pessoas com atitudes moralmente questionáveis tornam-se vítimas de críticas nas mídias sociais e começam a morrer de maneira misteriosa. De maneira análoga, na sociedade contemporânea, a cultura do cancelamento transfigurou o mundo virtual em uma ferramenta para a propagação da difamação e do ódio. Nesse sentido, nota-se que as relações de poder contribuem para que os mecanismos de recompensa continuem ativos no organismo social.
Em primeira análise, é evidente a característica sutil e complexa que a microfísica do poder detém. Para Foucault, todas as instituições participam das estruturas manipulativas, moldando relações e comportamentos. Por isso, é comum que uma onda de cancelamento rapidamente se espalha nas redes sociais, ou seja, os comportamentos ocorrerem de maneira repetitiva por conta da influencia de um individuo sobre o outro.
Além disso, é evidente que os mecanismos de recompensa online estão substituindo a busca por aprovação na vida real. Assim sendo, em uma de suas parábolas, Nietzsche pressupõe que para se afirmar como bom, o cordeiro sente a necessidade de apontar antes o mau dos outros diferentes dele. Portanto, o cancelamento de uma figura pública ou não, reverbera o desejo de autoafirmação de cada indivíduo, tornando cada vez mais comuns processos de retaliação, julgamentos e repressões.
Depreende-se, desse modo, a necessidade de interromper a cultura do cancelamento. Para isso, apesar de desafiador, o Poder Público, juntamente com as grandes redes de mídia, pode vincular campanhas publicitárias que exponham as consequências do cancelamento através de relatos de pessoas que sofreram esse processo. Assim, pretende-se formar o censo crítico da população para que se diminua a espetacularização e também as reproduções de comportamento em massa.