Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/08/2020

O ano de 2020 tem sido bem atípico e trouxe à tona debates polêmicos de extrema relevância para a sociedade contemporânea. Um exemplo é a aparição mais frequente das lutas das minorias, demonstrando que o preconceito está cada dia mais intolerado. Fruto disso temos o que se denominou cultura do “cancelamento”, termo criado em meados de 2017 para boicotar personalidades que cometessem qualquer violência dentro ou fora do espaço virtual. Cancelar seria, portanto, excluir do grupo ou do meio na qual a pessoa estava inserida, a fim de punir por qualquer manifestação ou ação desrespeitosa, preconceituosa ou mesmo criminosa.

É possível citar inúmeros exemplos de cancelamento nos últimos anos, mas, em 2020, foram muitos os casos, mas vale citar dois:  o da influenciadora digital Gabriela Pugliesi, que perdeu inúmeros seguidores na rede social Instagram além de contratos milionários, após divulgação de vídeos de uma festa em sua casa no meio da pandemia (depois de cumprir quarentena em razão de ter contraído o vírus da Covid-19);  o do americano Cafferty, que foi ferozmente punido por um sinal de “ok” feito na janela do seu carro interpretado como gesto racista.

Em casos como o de Pugliesi os danos podem ser bem duradouros, mas não é o que acontece em todos os cancelamentos, pois, considerando que trata-se de movimento virtual muito rápido e intenso, surgido um novo caso, os impactos do primeiro se dissipam. Ademais, no caso de Cafferty, a má interpretação das manifestações também podem tornar efêmero o movimento, provada a normalidade do gesto, apesar dos efeitos nocivos deixados na vida do cidadão que, no caso, perdeu o emprego de imediato.

O primeiro passo para tornar o cancelamento um meio legítimo de correção pedagógica de intolerantes, preconceituosos e criminosos é a criação pelo Conselho Nacional do Ministério Público de cartilhas digitais de conscientização da população sobre a necessidade de conhecer cada caso, bem como os impactos da exclusão na vida do indivíduo a ser cancelado, a fim de evitar punição indevida de inocentes.