Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/08/2020

A cultura do cancelamento à luz dos direitos humanos e do diálogo

Anitta, Alessandra Negrini, Mc Gui, Ludmilla. O que essas pessoas têm em comum além do fato de serem figuras públicas? Foram recentemente canceladas nas redes sociais. “Cancelamento”, termo usado para desmarcar compromissos ou eventos, agora é utilizado nas redes sociais como sinônimo de boicote a personalidades públicas acusadas de fazer ou dizer algo considerado condenável, ofensivo ou preconceituoso por determinados grupos sociais. Entretanto, a acusação sem possibilidade de defesa do acusado e a falta de diálogo colocam a problemática da cultura do cancelamento como algo que deve ser discutido.

Primeiramente, destaca-se a predominância de um discurso que não permite ao acusado a ampla defesa. Na cultura do cancelamento, o sujeito cancelado não pode se defender, contrariamente ao principio da ampla defesa disposto na Constituição Federal, artigo 5, inciso LV. Sem sua defesa, resta apenas a versão do grupo que cancelou o sujeito e este último fica sem poder apresentar sua versão dos fatos. Além disso, o sujeito passa a ser diretamente culpado, diferentemente do prelecionado na Convenção Americana de Direitos Humanos, artigo 8, 2, o qual dispõe que qualquer acusado deve ser presumidamente considerado inocente até que se prove o contrário.

Outro fator preponderante aponta para a falta de diálogo presente na cultura do cancelamento. O sujeito é cancelado por um ato, sem que haja previamente um dialogo com ele sobre o fato. Assim, constrói-se uma sociedade cada vez mais polarizada, violenta e com dificuldades de relacionamentos. Isso demonstra uma incapacidade de sair de si mesmo e ir ao encontro do outro, o que deveria ser algo tão básico das relações humanas, destaca. Ademais,pela falta de diálogo, muitas vezes os objetivos alcançados com o cancelamento podem ser opostos aos pretendidos: quem é cancelado também conquista novos seguidores, às vezes, uma legião de fãs.

A sociedade brasileira, portanto, encontra na ausência de ampla defesa e falta de diálogo, dois entraves na cultura do cancelamento. A fim de que se minimize esse cenário devem as redes sociais reservar um espaço de diálogo para os movimentos de cancelamento, denominado “Dialogando com os cancelamentos”, possibilitando ao sujeito cancelado ampla defesa e presunção de inocência e aos grupos possibilidade de defender seus pontos de vista e o porquê de se sentirem ofendido com o ato em questão. Assim, poder-se-á respeitar os direitos humanos e, ao mesmo tempo, dialogar sobre atos que merecem o debate na sociedade.