Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 01/09/2020

De acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, a sociedade moderna é instável e possui relações efêmeras, por conseguinte, não costuma oferecer segundas chances. Sob tal ótica, essa relação volátil reflete na “cultura do cancelamento”, prática que corrobora não só com o linchamento virtual, mas também acaba destruindo a reputação do indivíduo sem efetivamente solucionar a problemática em questão.

Inicialmente, é válido analisar como o conceito de julgamento popular está enraizado na história humana como ação punitiva em si, e também como forma de entretenimento. Acerca disso, é pertinente citar as execuções em praça pública no período da Revolução Francesa, marcadas por uma grande platéia composta por populares compactuando com esse tipo de prática. Hodiernamente, com o avanço tecnológico, a prática de julgamento tornou-se mais acessível e anônima, além de envolver um número maior de espectadores. Desse modo, a migração do julgamento popular para a era digital acaba fortalecendo o linchamento e ataques virtuais.

Como consequência desse evento, a pessoa que teve uma atitude criticada acaba sendo intensamente prejudicada, uma vez que a prática de “cancelamento” tem como objetivo o corte de relações e boicote à imagem do grupo ou pessoa. Nesse contexto, assemelha-se à obra literária 1984 de George Orwell, que utiliza o termo “vaporizado” para definir um membro da sociedade que desapareceu por quebrar normas de conduta. De maneira similar, o indivíduo que é “cancelado” acaba sendo excluído sem ter a chance de se redimir e reeducar, possibilitando a ocorrência do mesmo erro outra vez. Assim sendo, a política do “cancelamento” é falha, pois visa a destruição de imagem e não o diálogo sobre o assunto.

Em suma, a prática do “cancelamento” é prejudicial, insuficiente e não abre espaço para a correção de erros. Portanto, é dever do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos promover campanhas de combate ao linchamento virtual e, automaticamente, amenizar a “cultura de cancelamento”. Isso pode ser feito por meio de palestras e discussões em instituições de ensino, tendo como pauta a importância da empatia e diálogo na era digital. Com o intuito de estimular o debate como forma de correção e construir uma cultura mais efetiva em solucionar comportamentos problemáticos. E, assim, construir relações mais firmes, diferente das apontadas por Bauman.