Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 29/08/2020

Em meados de 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear uma prática virtual que já vinha acontecendo, o boicote a pessoas que cometeram alguma violência dentro e fora do espaço virtual. Popularizado e difundido, o movimento começou com o decorrer do tempo a mudar de objetivo, não é mais necessário ter cometido um crime para ser cancelado. O uso de um termo equivocado, uma expressão que reproduz preconceitos ou até mesmo o silêncio sobre um outro caso de injustiça já virou motivo de cancelamento. O cancelamento surge, então, como um movimento de romper com uma estrutura de poder para fazer uma denúncia justa que de outra forma não seria ouvida, porém, muitas das vezes, o imediatismo do movimento provoca intolerância e polarização, tornando o ambiente virtual hostil e, muitas vezes, injusto.

A cultura do cancelamento é um meio de romper com a estrutura de poder que blinda pessoas privilegiadas na sociedade. Afinal, foi por meio dela que grupos minoritários conseguiram expor violações a direitos humanos e fazer sérias denúncias. Mais do que demarcar posições sociais, cancelar pode servir para evidenciar pautas importantes, como os casos de Woody Allen e do ator Kevin Spacey, que giram em torno de acusações de abuso sexual. “Isso abre portas para debater a questão do assédio”, aponta Fernanda Medeiros, pesquisadora de celebridades. Diante disso, a cultura do cancelamento abre portas para debater pautas coletivas importantes.

A cultura do cancelamento, na maioria das vezes, costuma ter efeitos imediatos, onde a onda de boicote tem início tão logo o erro ou conduta tidos como reprováveis são notados e expostos. Tal imediatismo, porém, traz à tona certa intolerância e muita polarização, demonstrando assim que a sanção antecede a defesa. Nas eleições de 2018, a cantora Anitta foi bombardeada por mais de 214 mil posts no Twitter marcados com a hashtag “AnittaIsOverParty”. O movimento partiu de um público LGBT que lamentava o fato de a cantora não se posicionar contra Jair Bolsonaro. Dessa forma, o ambiente virtual torna-se hostil, seletivo e, por vezes, injusto.

Portanto, a cultura do cancelamento, teve origem em um movimento que promovia denúncia e discussão de temas relevantes, atualmente, acarreta o descarte do debate saudável, uma vez que não possui viés de educar e reintegrar, mas apenas excluir. Logo, o MEC juntamente com as Secretarias de Educação devem incluir a discussão de temas relacionados à problemática no currículo escolar, para que assim, as crianças desde cedo sejam orientadas a como se comportar em situações com essa temática. Plataformas e redes sociais devem controlar os ataques massificados de discursos de ódio, contribuindo assim, para a minimização do efeitos negativos da cultura do cancelamento.