Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 17/09/2020
De acordo com o filósofo Foucault, o sistema panóptico - modelo penitenciário no qual o vigilante possui visão total de todas as celas, sem que os prisioneiros estejam cientes - é aplicado na sociedade, instituindo uma poderosa simbologia de poder. Nesse sentido, nota-se que, na contemporaneidade, a internet assemelha-se ao panoptismo, uma vez que os usuários estão sujeitos a uma vigilância constante, realidade essa que favorece o linchamento virtual (cultura do cancelamento). Diante disso, a crença na imutabilidade do ser humano e a ausência de diálogo constituem fatores que agravam a problemática.
É importante ressaltar, em primeiro plano, que a inadmissão de erros reforça uma conjuntura intolerante. Em sua música “O homem que não tinha nada”, o cantor Projota afirma que o ser humano falha, mas possui a capacidade de refletir para adotar atitudes melhores. No entanto, constata-se que, no mundo virtual, a perfeição é tida como parâmetro para analisar a conduta dos indivíduos, o que desconsidera o ato de errar como característica inerente ao ser humano e nega o potencial transformador do aprendizado individual. Dessa maneira, apenas um erro é suficiente para descredibilizar as ações benéficas da pessoa “cancelada”, haja vista que grande parte da população valoriza os comportamentos errôneos em detrimento dos positivos.
Ademais, vale destacar a falta de comunicação como um dos pilares do linchamento na era digital. Segundo o filósofo Habermas, o diálogo é fundamental para a garantia do funcionamento adequado da sociedade. Entretanto, a cultura do cancelamento inibe a possibilidade da ocorrência de discussões construtivas fundamentadas em valores éticos, as quais auxiliariam no processo de evolução pessoal do sujeito condenado pelos usuários da rede. Desse modo, a internet está deixando de contribuir com a transformação social pautada no respeito, visto que, no cenário vigente, limitou-se a um espaço de julgamento e propagação de ódio.
Portanto, é imprescindível a adoção de medidas a fim de mitigar o quadro atual. Para tanto, com o objetivo de promover uma mudança comportamental positiva, cabe aos proprietários das redes sociais mais populares - como o Instagram e Twitter -, por meio de mensagens de alerta, difundir a necessidade de dialogar e conscientizar os usuários que os seus atos podem afetar emocional e psicologicamente outra pessoa. Tal ação se concretizará a partir da modificação do algoritmo do aplicativo, que identificará com base no conteúdo depreciativo do texto, os indivíduos responsáveis por disseminar o ódio nas mídias sociais, sendo que eles serão o alvo das mensagens de conscientização. Assim, o sistema panóptico atuará de forma benéfica no ambiente virtual.