Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

Giordano Bruno, no século XVI, foi queimado pela inquisição da Igreja Católica por apresentar ideias que questionavam os dogmas eclesiásticos. Notadamente, percebe-se que tal prática de cancelar o adversário é visualizada, na contemporaneidade, não pela violência física- dado que há um recorte de tempo de cinco séculos e, com isso, hábitos mudam- mas sim, pela finalidade em comum de silenciamento ao pensamento avesso. Dessa maneira, o debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade, evidencia a passionalidade do homem como uma ferramenta propulsora para tal ação, além de reverberar a dissonância entre a Constituição de 1988 e a realidade exposta.

A princípio, Sergio Buarque de Holanda, em ‘‘Raízes do Brasil’’, desconstrói o conceito intuitivo de cordialidade- relativo à educação-  à medida que o associa à etimologia da palavra no latim- cordialis, ligado ao coração- e, portanto, propenso a ser passional. Nessa lógica, é possível entender o comportamento tão comum nas redes sociais, sobretudo, em momentos de eleições para cargos políticos, de usuários que bloqueiam contas com posicionamentos contrários. À vista disso, nota-se que a passionalidade é uma ferramenta que fomenta a cultura do cancelamento, uma vez que a aversão ao diferente é o que motiva tal ato e, assim, vivifica-se o Homem Cordial no tecido social.

Outrossim, a partir da interpretação da Constituição Cidadã percebe-se que o direito à liberdade de expressão é resguardado a todos. No entanto, a realidade expõe uma contrariedade. Esse paradoxo  pode ser expresso quando grupos religiosos realizam tentativas de boicotes às empresas que associam sua marca à diversidade quanto a orientação sexual, por exemplo. Nessa perspectiva, o paralelo perante a Carta Magna e o cenário exposto ecoa o ‘‘Enigma da Modernidade’’, do filósofo Henrique de Lima, o qual elucida que, apesar de a sociedade ser avançada em suas razões teóricas, é, por sua vez, primitiva em suas razões éticas. Dessa maneira, verifica-se que o desacordo ante os dispositivos constitucionais e a narrativa factual é um emblema que precisa ser solucionado.

Logo, é mister que o Estado mude esse quadro. Para tanto, é fundamental que Ministério da Educação realize palestras destinadas às escolas, por meio de psicopedagogos que explicitem sobre os benefícios do hábito da leitura, a fim de que a passionalidade do indivíduo seja mitigada pela  inserção da literatura desde a sua formação. Ademais, é imprescindível que o Terceiro Setor, aliado à mídia, desenvolva campanhas publicitárias, mediante depoimentos de ativistas sociais sobre o respeito à diversidade, com o intuito de que haja concordância entre as garantias constitucionais e os fatos. Dessa forma, resolver-se-ão os problemas associados ao debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade hodierna.