Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 16/09/2020
O período do Terror, durante a Revolução Francesa, ficou assim conhecido porque uma simples acusação de ser um cidadão contra a revolução era o suficiente para morrer na guilhotina, mesmo sem julgamento ou provas da acusação. Embora superada essa fase, a postura de julgar, baseando-se no contexto moral ou em visões particulares do mundo, tem se disseminado nas sociedades e foi batizada de cultura do cancelamento. Com isso, é imperioso debater seus aspectos positivos, como o combate à posturas preconceituosas, e negativos, como o linchamento virtual.
Primeiramente, é necessário salientar que a cultura do cancelamento mobiliza a sociedade contra injustiças sociais. Ademais, é inegável que a popularização da internet, desde os anos 2000, permitiu um aumento da participação pública nos debates sociais, como denúncias e campanhas de engajamento. O cancelamento, no ambiente virtual, tem feito a sociedade impor mudanças na postura de órgãos ou pessoas públicas, contribuindo, assim, no combate às desigualdades enraizadas socialmente. Um exemplo factual disso foi a mobilização na internet contra a postura racista da polícia estadunidense, que causou a morte de George Floyd, um cidadão preto. Tal cancelamento comoveu o mundo e resultou em diversas manifestações nas ruas de vários países contra o racismo.
Concomitantemente, existe o perigo dos cancelamentos saírem do controle e causarem linchamentos virtuais, que são ofensas, boicotes e acusações. O sociólogo Émile Durkheim define o “Fato Social” como geral, externo e coercitivo ao indivíduo, ou seja, a sociedade impõe situações e posturas à pessoa que, a revelia, sofrerá penalizações. Dessa forma, inúmeros prejuízos ao cancelado podem ocorrer, como perdas financeiras e emocionais, dado que a coercitividade do cancelamento, muitas vezes, não dá direito à resposta e podem ser frutos de má interpretações. Uma professora de teatro em Nova York, por exemplo, foi acusada de estar dormindo durante uma reunião online contra racismo e uma comissão, com mais de duas mil assinaturas, pediu sua demissão. A professora alegou que não estava dormindo, e sim olhando para baixo enquanto lia um artigo relacionado à pauta da reunião.
Portanto, é necessário debater os efeitos da cultura do cancelamento na sociedade e, para isso, é importante que o cidadão adepto dessa manifestação busque informações apuradas do recorte temático a ser cancelado. Isso pode ser feito por meio de pesquisas em sites de instituições oficiais, jornais, revistas e blogs que tenham boa reputação de fidedignidade. Essa ação visa evitar o linchamento virtual sem diminuir a participação popular no debate público e engajamento contra posturas preconceituosas, como discursos de ódio, homofóbicos e racistas. Assim, o indivíduo participará de forma assertiva na sociedade sem injustiçar outros com o seu cancelamento.