Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 28/08/2020
A expressão “cultura do cancelamento” é um termo já existente que foi popularizado a partir do surgimento do movimento “#MeToo”, que tinha como objetivo movimentar denúncias de assédio sexual em escala global. Contudo, essa cultura é constantemente debatida pela sociedade visto que, apesar de originalmente promover espaço para minorias exporem temas que dificilmente seriam ouvidos, atualmente teve sua estrutura extremamente modificada, adquirindo aspectos negativos como a impossibilidade do diálogo e danos à saúde mental dos envolvidos.
Em primeira análise, é visto que, por conta do boicote realizado durante um cancelamento, a possibilidade da empresa ou pessoa cancelada dialogar para se defender é ignorada, sendo uma atitude que prejudica a democracia pois não há a exposição de outras ideias. Um exemplo dessa situação ocorreu com cantora Marília Mendonça, que mesmo após assumir seu erro por ter realizado comentários transfóbicos, continuou sendo alvo de boicote virtual, impossibilitando a chance de “reverter a situação”, como afirma a psicóloga Adriana Müller. Essa intolerância, que não permite o exercício do contraditório, se deve por conta do imediatismo das redes sociais, que torna mais fácil e rápido ignorar alguém do que iniciar uma conversa compreensiva, criando uma geração de pessoas mais preocupadas em julgar do que ajudar.
Ademais, os danos à saúde mental dos envolvidos são uma das principais consequências da cultura do cancelamento, seja para aqueles que cancelam, que se tornam pessoas intolerantes até consigo mesmas, podendo desenvolver doenças psicológicas, seja para os cancelados, que também podem desenvolver doenças devido aos fortes ataques recebidos, como ocorreu com o influenciador digital Benji Krol. Após ter conversas pessoais vazadas, ele foi alvo de um linchamento virtual que o levou a desenvolver ansiedade e tentar cometer suicídio, demonstrando que essa cultura perdeu o objetivo maior de provocar uma reflexão e mudança de ideias. Assim, é notório que o cancelamento se tornou um meio de punir severamente algo ou alguém através do linchamento virtual, o qual é puramente fruto da necessidade humana de querer se vingar, de acordo com o doutor em direito pela USP Vitor Burgo.
Em suma, analisa-se que há a necessidade da criação de medidas que diminuam os efeitos negativos da cultura do cancelamento. Dessa forma, o MEC deve oferecer palestras sobre essa cultura em escolas públicas, por meio da discussão sobre a intolerância, com finalidade de incentivar a importância de conversa e da ajuda. Além disso, as plataformas e redes sociais devem monitorar a postagem de publicações por meio do controle de ataques em massa em seus aplicativos, a fim de reduzir o número de mensagens com conteúdos nocivos à saúde mental.