Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

No livro “Raízes do brasil”, Sérgio Buarque efetua uma análise sociológica em torno da sociedade brasileira, em que o patrimonialismo, aliado ao precário poder estatal, ocasionou uma cultura tanto de descrença na eficácia do Estado quanto de tentativa de fazer justiça por si só. Esse ceticismo na eficiência dos mecanismos públicos de justiça, sobretudo no que tange a questões sociais na internet, originou o fenômeno do cancelamento. Não obstante, esse ato é pouco eficaz, haja vista que falha ao forçar a mudança de pensamento somente por meio de punições, sem a existência de diálogo. Ademais, os praticantes desse boicote utilizam o anacronismo para difamar a imagem dos cancelados.

Durante a Ditadura Militar no Brasil, houve o decreto do AI-5, medida que, entre outras restrições, extinguiu o habeas corpus, o que proibiu o direito de defesa do cidadão. De maneira semelhante, a cultura do cancelamento, ao punir pessoas nas redes sociais, não permite que o indivíduo se defenda das acusações promovidas pelos internautas. Além disso, esse ato não só carece de diálogos com o acusado, como também não tenta mudar a opinião do cancelado. Por conseguinte, esse mecanismo de boicote virtual, diferente dos processos judiciais do Estado, não objetiva readequar o cidadão na sociedade, o que o torna pouco eficiente.

Ademais, o cancelamento não só age contra a reputação de figuras públicas, mas também desconsidera qualquer evolução dessas pessoas como ser humano, uma vez que utiliza afirmações feitas há anos para lesar a imagem atual dos afetados. A título de exemplo, em 2019, o youtuber Cauê Moura foi alvo de sucessivas acusações e boicotes a fim de prejudicá-lo, motivados por declarações preconceituosas realizadas há quase 10 anos. Esse evento demonstra o anacronismo contido nessa tendência do cancelamento, uma vez que falas de anos passados não são suficientes para definir a atual visão de mundo dos indivíduos. Além disso, com o fito de manipular uma visão a respeito de um cidadão, essa massificação de pensamentos coletivos em detrimento do raciocínio crítico tem relação com a Razão instrumental, idealizada por Max Horkheimer ainda no século XX.

Destarte, o debate acerca da cultura do cancelamento é pouco eficaz, além de ser descredibilizado pelo anacronismo que permeia esse ato. Nesse contexto, o Ministério do Desenvolvimento Social deve sugerir aos representantes das principais redes sociais no Brasil que coíbam ataques à imagem de outros usuários. Desse modo, por meio de políticas de advertências e possíveis banimentos de contas dos usuários que desrespeitem as novas diretrizes, o efeito de tal medida é desarticular cancelamentos que tenham como base humilhações públicas. Ademais, urge que Ministério da Cidadania fomente uma cultura crítica no tocante à formação de opiniões em relação a outros internautas por intermédio de propagandas nas mídias digitais, com o fito de combater as punições virtuais baseadas em pseudofatos