Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 27/08/2020
Giordano Bruno foi queimado pela inquisição da Igreja Católica, no século XVI, por descordar dos ensinos eclesiásticos da época. Tiradentes, por sua vez, no século XVIII, foi esquartejado, no Brasil Império, por representar a insurgência de um novo período. Notadamente, percebe-se, por meio da História, que a prática do cancelamento é vivenciada há tempo. Desse modo, ao analisar o debate de tal cultura, na contemporaneidade, verifica-se não só uma sociedade que reverbera a passionalidade em suas experiências interpessoais, como também o desacordo perante a Constituição Cidadã e a realidade como uma ferramenta para tal ação.
A princípio, Sergio Buarque de Holanda, em ‘‘Raízes do Brasil’’ desconstrói o conceito intuitivo de homem cordial- como educado- e o explica consoante à etimologia da palavra no latim- cordialis, ligado ao coração-, ou seja, segundo o autor, passional. Assim, é possível compreender o comportamento de o indivíduo restringir o outro que apresenta-se contrário a sua forma de pensar. Nesse sentido, na hodiernidade, verifica-se tal ação, sobretudo, nas redes sociais, dado que bloqueios realizados quando há postagens divergentes sobre o mesmo assunto, ratificam tal prática. Dessa maneira, nota-se que a passionalidade do homem é uma força propulsora à cultura do cancelamento.
Outrossim, a partir da interpretação da Constituição de 1988 observa-se que o direito à liberdade de expressão é resguardado a todos os cidadãos, no entanto, a realidade expõe uma contrariedade. Esse paradoxo expressa-se, por exemplo, nos constantes boicotes realizados, por grupos religiosos, contra empresas que venham a vincular sua imagem à diversidade no tocante à orientação sexual. Nessa perspectiva, o paralelo criado entre a Carta Magna e o cenário exposto ecoa o ‘‘Enigma da Modernidade", do filósofo Henrique de Lima, o qual elucida que, apesar de a sociedade ser avançada em suas razões teóricas, é primitiva em suas razões éticas. À vista disso, nota-se que a cultura de cancelamento está associado à dissonância ante os dispositivos constitucionais e a narrativa factual.
Logo, é mister que o Estado mude esse quadro. Para tanto, é fundamental que o Ministério da Educação realize aulas expositivas destinadas aos estudantes, por intermédio da participação de psicopedagogos que incentivem à leitura cotidiana, a fim de que a passionalidade no trato com o outro seja dirimida por meio da literatura. Ademais, é imprescindível que o Poder Executivo, aliado à mídia, realize campanhas publicitárias, mediante depoimentos de ativistas e cientistas sociais, sobre a importância do pensamento diverso, com o intuito de que haja concordância entre a Constituição e os fatos. Dessa maneira, resolver-se-ão os emblemas relacionados ao debate sobre a cultura do cancelamento no tecido social contemporâneo.