Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/08/2020

Na distopia “1984”, de George Orwell, é narrado um mundo totalitário onde o Governo controla a população, e suas ações vão desde criar um inimigo mortal até apagar a existência de pessoas por terem dito algo contrário ao que o partido pensa. Analogamente, fora da ficção, a cultura do cancelamento, nome dado ao ato de ignorar alguém nas redes por atitudes questionáveis, age de forma semelhante, visto que transfigura os usuários em “juízes”, os quais não admitem erros em posicionamentos alheios, ocasionando muito mais efeitos negativos do que a moralidade propagada por quem defende o movimento.

Primordialmente, é válido destacar o fato de as motivações por trás das críticas on-line fundamentarem-se em comportamentos de injustiças sociais, ao visar promover a reflexão do sujeito afetado. No entanto, ascender esse debate moralista minimizando o outro soa como um paradoxo, posto que a prática do cancelamento é realizada de modo destrutivo e ameaçador, sobretudo contra personalidades públicas, as quais ousaram discordar da opinião majoritária. Nesse sentido, a transformação das mídias digitais na figura de “tribunais inquisitoriais” revela um aspecto preocupante da sociedade contemporânea, bem como reproduz uma lógica punitivista nociva, já prevista pelo filósofo Michel Focault, ao linchar (com hipocrisia) um comentário ignorante.

Outrossim, o fenômeno disfarçado de justiçamento moderno, explícito pelos famosos “boicotes” às marcas e desmascaramento de usuários, contribui para alavancar o discurso de ódio no ambiente cibernético, além da perseguição em massa nas redes sociais como twitter e instagram. Sob tal ótica, o episódio “Odiados pela nação”, da série futurística “Black Mirror”, ilustra essa temática: a utilização da tecnologia para julgar pessoas públicas que realizaram uma ação desagradável. Por conseguinte, o cancelamento banalizado protagoniza cenários de intolerância e difamação nas redes, gerando impactos negativos ao meio em questão, como a destruição de carreiras artísticas, prejuízos socioemocionais e financeiros aos indivíduos que, em vez de serem conscientizados, são automaticamente excluídos pela “bolha da lacração”.