Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

Em meados de 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear o boicote a pessoas (famosas ou não) que cometeram alguma violência dentro ou fora do espaço virtual. Esse cenário de cancelamento é apenas mais um exemplo entre inúmeros do cotidiano no ambiente online. Nessa perspectiva, convém analisar os fatores e os impactos que norteiam a questão da cultura do cancelamento no Brasil.

Em primeiro lugar, qualquer pessoa corre o risco de ser cancelada, porque se trata de uma ação popular. Para o filósofo francês Michel Foucault, o poder vem de uma rede de indivíduos que compartilham as mesmas ideias e concordam com o mesmo argumento. Quem discorda das palavras compartilhadas pelas massas pode eventualmente cair nas mãos dos canceladores. Com o rápido compartilhamento de informações nas redes sociais, estes se tornaram uma tendência e muitos usuários concordam com isso. Desta forma, o responsável pelo cancelamento da cultura é a mesma pessoa que sofre as consequências do cancelamento: um dia você cancela, no outro dia você está cancelado.

Como resultado, a abolição da cultura perdida de diálogo exclui mudanças nas opiniões e atitudes. A antropóloga e cientista social Rosana Pinheiro disse: “O cancelamento é sempre negativo, o problema não é a crítica, mas a rejeição do tema, o que a pessoa deve dizer e o que faz.” Nessa lógica, a abolição desta cultura certamente não abre espaço para a troca de opiniões, porque ao julgar o comportamento dos outros, não considera defender os outros, mas apenas busca a ‘justiça’ sem restrições. Portanto, a sociedade precisa saber mais sobre o comportamento dessa cultura.

A questão da cultura do cancelamento no Brasil é um fenômeno negativo e, por consequência, necessário ser combatido e atenuado no Brasil. Convém, portanto, ao Governo federal mediante à mídia social, criar campanhas que abordem as consequências da cultura do cancelamento, afim de que os “canceladores” e uma sociedade em geral compreendam que ela é desnecessária, e que uma mudança deve ocorrer a partir do diálogo. Ademais, essa campanha deve ser estendida para as escolas, com o auxílio do Ministério da Educação que deve, por meio de palestras e rodas de conversa com psicólogos e pedagogos, discutir os pontos negativos da cultura do cancelamento e debater com os alunos formas de alcançar uma sociedade mais tolerante, com o objetivo de que os jovens consigam ter mais respeitos pelas opiniões divergentes e saibam apontar os erros de forma a alcançar mudanças positivas.