Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/08/2020

O movimento “cultura de cancelamento” começou como uma forma de chamar atenção para causas como justiça social e preservação ambiental, uma forma de dar voz à minoria. Porém, no Brasil contemporâneo, pode-se relacionar essa “cultura” à parábola de Nietzsche: Um cordeiro diz a outros “essas aves da rapina são más; e quem for o menos possível de ave de rapina, ou antes, o seu oposto, cordeiro - este não deveria ser bom?” Ou seja, entende-se como “cultura de cancelamento” o ataque à reputação de quem está sendo “cancelado” por ter feito algo considerado errado, que seriam as aves de rapina, e, o cordeiro, as pessoas que estão criticando e “cancelando”. Assim, é visível que essa cultura de cancelar deve ser acabada, visto que não é nada mais que uma forma de punir e linchar ações e pessoas ao invés de discutir ideias e tentar lidar de forma respeitosa com temas complexos.

Um exemplo recente de cancelamento na internet foi a digital influencer Gabriela Pugliese. Em abril, durante a quarentena da pandemia do corona vírus, após ter divulgado fotos de uma festa feita em sua casa, a blogueira foi alvo de críticas em diversas redes sociais, o que a fez perder contratos e parcerias com marcas e lojas, que foram cobradas pelos internautas a darem posicionamentos. Nessa situação, ao invés de praticarem o cancelamento, seria mais eficaz promover um diálogo tentando mostrar que a escolha de fazer uma festa foi inadequada, para que, dessa forma, a blogueira reconheça seu erro e as consequências que o mesmo poderia ter trazido, ao invés de reconhecê-lo e arrepender-se deste somente por estar sendo criticada e prejudicada.

Além disso, a prática de cancelar torna o ambiente virtual hostil e injusto, já que espalha mensagens de ódio para “concertar” algum comportamento e, os impactos e duração do cancelamento podem variar muito, pois têm muito a ver com o lugar social que cada qual desses atingidos ocupa e o peso que a sociedade dá ou não para o que está sendo criticado, como afirmou o jornalista William Wack, demitido da Rede Globo após comentários racistas. Com base nisso, após a criação da cultura do cancelamento, também foi criada a expressão “passar pano”, que é utilizada quando as pessoas “esquecem” ou “ignoram” o comportamento errado da pessoa que já foi cancelada.

Sabendo disso, é importante que algumas medidas sejam tomadas para que o ambiente virtual deixe de ser um lugar de brigas e discussões e essa cultura de cancelamento acabe. Devem ser feitas políticas de reeducação sobre comportamento on-line e as escolas devem trabalhar com alunos a importância de respeitar e dar tempo para que as pessoas reconheçam seus erros e evoluam, para que aprendam que a solução não é apontar dedos e julgar, e sim, ajudar. Além disso, é muito importante que os “canceladores” conscientizem-se das consequências que podem trazer à quem estão criticando e entendam que existem outros modos de ajudar e resolver problemas sem prejudicar alguém.