Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/08/2020

A chamada Teoria Microfísica do Poder, do filósofo Michel Foucault, explica que o poder não está com uma só pessoa, mas sim na rede composta de saberes e discursos e, muitas vezes, o controle que se faz a um determinado grupo está relacionado ao ato de impedir que essas pessoas emitam opiniões que vão contra algum discurso. Assim sendo, tal teoria está diretamente ligada à chamada cultura do cancelamento, a qual, apesar de ter surgido com intenção de dar visibilidade para minorias, trouxe mais problemas do que soluções. Dessa forma, é importante a discussão de tal cultura na sociedade contemporânea, devido a essa estar relacionada com várias problemáticas, tais quais a ineficiência do método na resolução de problemas e a hostilização do ambiente virtual.

“É uma espécie de movimentação que não passa por questões de valores, mas sim perseguições e outros tipos de sentimentos muito individualistas” afirma o bacharel em ciências sociais na USP, Diogo Soares sobre a cultura do cancelamento. Tal fala ilustra uma grande problemática dessa cultura, que é a desconexão com instituições públicas do Judiciário. Poucos são os casos os quais são levados à justiça, na maior parte das vezes, o cancelamento ocorre apenas no ambiente virtual e no momento específico, sem resultados efetivos.

Ademais, em julho do ano vigente, um ex-jogador profissional de jogos eletrônicos postou um pedido de casamento para sua então namorada nas redes sociais e foi cancelado com a justificativa de que estaria pressionando-a a aceitar por ter postado o pedido na internet. O influenciador sofria depressão e acabou suicidando-se logo depois. Nessa conjuntura, entende-se que a cultura do cancelamento torna-se banalizada ao se atacar pessoas por qualquer ação ou fala errada, aumentando as intolerâncias e a falta de empatia, tornando, assim o ambiente virtual bastante hostil.

Destarte, a cultura do cancelamento, apesar de ter surgido com boas intenções, apresenta-se ineficiente e propagadora de uma hostilidade na internet. Infere-se, portanto, que, visando diminuir ataques virtuais e aumentar denúncias eficientes, o Ministério da Justiça, com o apoio de instituições privadas ligadas a tecnologias digitais deve realizar campanhas de conscientização, divulgadas principalmente no meio virtual. Além disso, com o intuito de amenizar a propagação de discursos de ódio nas redes sociais, o Ministério da Educação, em parceria com as Secretarias da Educação deve implantar no currículo escolar a discussão efetiva sobre temas relacionados.