Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/08/2020

Na ditadura militar brasileira, era frequente a repressão contra aqueles que não se alinhavam aos ideais do governo. Entretanto, dentro da sociedade contemporânea, uma nova cultura de coibição de ações, falas e atitudes, a do cancelamento, está se difundindo por meio das redes sociais. Por isso, essas perderam a representatividade da liberdade de expressão por fazerem alusão ao antigo autoritarismo. Logo, o excesso de opressão pública unido à falta de diálogo aberto na internet intensifica o movimento do cancelamento.

Portanto, essa cultura está a mercê das opiniões pessoais da maioria dos usuários de aplicativos como Facebook, Instagram e Twitter. Visto que ela se caracteriza pela alta pressão crítica sofrida por anônimos ou famosos na internet,  cometida por grupos sem embasamento ou responsabilidade, como destaca a colunista Stephanie Ribeiro. Por exemplo, o caso da Gabriela Pugliese, blogueira atacada virtualmente por dar uma festa em sua casa durante a pandemia da COVID-19. Assim, por conta dessa alta repressão pública ao ato da youtuber, patrocinadores da mesma se viram obrigados, pelas imposições dos internautas, a colocarem fim nos contratos com a influenciadora. Dessa forma, quanto mais o movimento toma visibilidade nas mídias sociais, surgem consequências além delas.

Contudo, as opressões não possuem muita credibilidade, já que grande parte dos opressores não dá espaço para as palavras dos oprimidos, como ocorria no antigo regime militar. Ou seja, o “cancelamento” se baseia apenas na visão dos observadores da situação. De modo que esses não buscam entender circunstâncias, contextos ou culturas em que certo assunto está inserido. Logo, segundo Leonardo Goldberg, doutor em psicologia, não há conversas democráticas na internet. O que ocasiona a prevalência das ações repressivas nas redes sociais, tal como comentários e postagens de ódio ou duras críticas em alta escala. Desse modo, o novo movimento de repressão digital está constantemente em expansão, pois o ambiente onde se encontra é propício para o avanço dessa cultura.

Em suma, as coibições virtuais estão ligadas à falta de debates sobre o movimento do cancelamento, que cresce nas mídias sociais. Assim, os desenvolvedores dos sites que abrigam a nova cultura, por meio de projetos desenvolvidos com o redirecionamento de investimentos internos, criarão ferramentas dentro dos aplicativos para a conscientização do fenômeno do cancelamento. As quais demonstrarão como criar uma crítica embasada, responsável, não opressora, que considere todas as circunstâncias de um ocorrido e como os diálogos são importantes. Portanto, a repressão virtual se atenuará, uma vez que os internautas verão como certos julgamentos são infundamentados.